A Apple completou 50 anos na semana passada, reafirmando um legado repleto de inovações que transformaram o uso cotidiano da tecnologia — ao mesmo tempo em que colecionou produtos que não atingiram o mesmo êxito comercial. Fundada por “dois Steves” em uma garagem de São Francisco, a empresa se tornou onipresente: atualmente, cerca de uma em cada três pessoas no planeta possui um produto Apple.
Especialistas consultados apontam o marketing e a construção da marca como fatores centrais para o sucesso da companhia. Emma Wall, estrategista-chefe de investimentos da Hargreaves Lansdown, diz que a empresa “vendeu um sonho” e valorizou tanto a marca quanto a linha de produtos. Após a morte de Steve Jobs (1955-2011), a Apple passou a focar mais em aprimorar tecnologias existentes; Ken Segall, ex-diretor criativo de Jobs, elogia o trabalho de adaptação do atual CEO Tim Cook e ressalta que a empresa manteve sua rentabilidade, ainda que parte do público nostálgico prefira a era Jobs.
Três sucessos
iPod (2001) — Lançado em 2001, o iPod não foi o primeiro reprodutor de música portátil, mas é considerado um dos produtos mais emblemáticos da Apple. Com o design do “anel de clique” e a integração com a biblioteca iTunes, o aparelho mudou a forma de comprar e armazenar música digital, contribuindo para que o download legal se tornasse padrão. O iPod Touch, de 2007, foi criado pela mesma equipe que desenvolveria o iPhone; para analistas como Francisco Jeronimo, da IDC, o iPod deu à Apple suporte financeiro e maturidade operacional para entrar na indústria de smartphones.
iPhone (2007) — Introduzido em 2007 com a fórmula descrita por Steve Jobs como “iPod, telefone e comunicador via internet”, o iPhone revolucionou o mercado mesmo sem ter sido o primeiro em várias funções técnicas. Hoje são mais de 200 milhões de unidades vendidas por ano — cerca de sete aparelhos por segundo globalmente — e o dispositivo consolidou um ecossistema que dificulta a saída dos usuários para plataformas concorrentes. Observadores como Ben Wood, da CCS Insight, descrevem o iPhone como um produto que prende o consumidor ao seu universo.
Apple Watch (2015) — Lançado em 2015, o Apple Watch transformou a Apple em referência também no segmento de relógios inteligentes. Com receitas estimadas em torno de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 78 bilhões), o dispositivo tornou-se o smartwatch mais vendido do mundo e se destacou por recursos de saúde vestível, como monitoramento cardíaco. Analistas apontam que o Apple Watch poderia, isoladamente, figurar entre as 250 a 300 maiores empresas dos EUA em termos de faturamento.
Três fracassos
Apple Lisa (1983) — Lançada em 1983, a Lisa foi pioneira ao integrar interface gráfica e mouse, mas seu preço de lançamento — cerca de US$ 10 mil (aproximadamente R$ 52 mil pelo câmbio atual) — tornou o produto inviável comercialmente. Para o analista Paolo Pescatore, o caso mostrou que estar à frente em inovação não basta quando o posicionamento de preço impede a adoção. A Apple procurou corrigir o modelo com o Macintosh, lançado no ano seguinte a um preço bem menor: US$ 2.495 (cerca de R$ 13 mil).
Teclado “borboleta” (2015–2019) — Introduzido em 2015 em laptops como o MacBook Air, o mecanismo conhecido como teclado borboleta foi alvo de críticas por problemas de confiabilidade e pela sensação de pior desempenho na digitação. Críticos apontaram que a solução priorizava a redução de espessura em detrimento da durabilidade. A Apple reviu o design e, em 2019, lançou o MacBook Pro de 16 polegadas sem o teclado borboleta.
Vision Pro (2024/2025) — O headset Vision Pro, apresentado como uma grande aposta em realidade aumentada, enfrentou baixa demanda segundo reportagens, e a empresa teria reduzido a produção do aparelho de US$ 3,5 mil (cerca de R$ 18 mil) alguns meses após o lançamento devido ao volume de estoque não vendido. Para analistas como Ben Wood, a proposta acabou sendo considerada complexa e carente de conteúdo capaz de replicar o sucesso de outros produtos da Apple, o que pode levar a companhia a adotar postura mais cautelosa em projetos semelhantes.
Ao completar meio século, a Apple segue marcada por inovações que mudaram setores inteiros e por decisões que serviram de aprendizado para futuras estratégias da empresa.
Com informações de G1




