Na última quinta-feira, 28 de maio de 2026, a operação Fluxo Oculto revelou o setor de combustíveis como uma das principais fontes de receita do crime organizado no Brasil. Essa área está intimamente ligada ao mercado financeiro, facilitando a lavagem de dinheiro através de fintechs e fundos de investimento. Dados do Atlas da Violência de 2026, divulgados na terça-feira, 26 de maio, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que o tráfico de cocaína representa apenas 10% da receita do crime organizado no país, com combustíveis, bebidas e ouro liderando as atividades mais lucrativas.
O mercado de combustíveis gera anualmente mais de R$ 60 bilhões, o que corresponde a cerca de 40% da receita das facções criminosas. O Atlas da Violência observa que a diversificação das atividades das organizações criminosas, que agora se infiltram em cadeias produtivas legais e na administração pública, é uma tendência preocupante.
A operação recente, um desdobramento da Carbono Oculto, visa combater um esquema bilionário de adulteração e fraudes no setor de combustíveis. O uso de centros financeiros, como o da Faria Lima em São Paulo, é um ponto focal na lavagem de recursos ilícitos. O promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), João Paulo Gabriel, afirma que as fintechs possuem estruturas que ajudam a proteger o patrimônio dos criminosos. A movimentação financeira intensa dessas instituições permite a recepção de valores de várias fontes e sua redistribuição, o que facilita a reorganização dos esquemas criminosos após operações policiais.
“Essas instituições financeiras se reestruturarão após a Carbono Oculto. Identificamos a movimentação de R$ 4 bilhões que saíram das fintechs que foram alvo da primeira fase da operação para aquelas investigadas na segunda fase”, informa Gabriel.
O estudo de rastreamento de produtos do crime organizado aponta que a receita anual ligada a combustíveis e lubrificantes é de R$ 61,5 bilhões, representando 41,8% dos negócios das facções. Os principais mercados explorados incluem:
- Combustíveis: comercialização ilegal de 13 bilhões de litros por ano, resultando em perdas fiscais de R$ 23 bilhões.
- Bebidas: produtos contrabandeados e falsificados representam 38,8% do mercado ilegal, com receita anual de R$ 56,9 bilhões.
- Ouro: extração e produção ilegal geram R$ 18,2 bilhões por ano.
- Tabaco: o mercado ilegal de cigarros corresponde a 40% do consumo nacional, com receita média anual de R$ 10,3 bilhões e prejuízos fiscais de mais de R$ 94 bilhões nos últimos 11 anos.
Enquanto isso, o tráfico de cocaína gerou uma receita estimada de R$ 15 bilhões entre 2022 e 2023, um quarto do que o crime organizado arrecadou com combustíveis no mesmo período. O crime organizado movimenta cerca de R$ 350 bilhões anualmente, somando roubos de celulares e crimes digitais, que sozinhos ultrapassam R$ 186 bilhões.
O Atlas da Violência também destaca que entre 2018 e 2024, o número de roubos reportados caiu pela metade, mas os estelionatos, especialmente os virtuais, cresceram mais de cinco vezes. Essa mudança no comportamento criminoso surpreendeu as autoridades, que não estavam preparadas para enfrentar os novos desafios, contribuindo para a sensação de insegurança.
Wagner Mesquita, especialista em Segurança Pública, confirma que as facções estão migrando para setores com menor repressão, como combustíveis e contrabando. Ele observa que o contrabando de cigarros, por exemplo, gera lucros comparáveis ao narcotráfico, mas com menor reprovação social e penas mais brandas.
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