Maioria dos evangélicos rejeita pressão eleitoral dentro das igrejas

Claudio Vasconcelos
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Pesquisa nacional mostra resistência de fiéis à indicação de candidatos por líderes religiosos. Para a maioria, a escolha nas urnas deve permanecer individual.

Uma pesquisa nacional sobre religião e vida pública revelou que a maioria dos fiéis evangélicos e cristãos em geral rejeita a transformação de templos em espaços de campanha eleitoral ou a indicação de voto por lideranças religiosas. O estudo foi divulgado na semana passada e traz números que destacam essa resistência ao uso eleitoral das igrejas.

“O voto deveria ser do cidadão e não da religião”, afirmou o pastor Lucas Oliveira, 30 anos, que atua em uma igreja batista de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Os dados mostram um distanciamento entre o protagonismo público de certas lideranças religiosas e a percepção da base de fiéis sobre o que é legítimo dentro do espaço religioso. Pesquisa e especialistas apontam que, apesar da presença de lideranças no debate público, a transferência direta de votos por indicação é contestada por grande parte dos entrevistados.

Opinião sobre politização dos templos

  • 83% dos entrevistados são contrários à indicação de voto por pastores e padres.
  • 82% rejeitam a discussão política durante cultos e missas.
  • 90% são contra campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos.

A pesquisadora Lívia Reis, do Instituto de Estudos da Religião, analisou a mudança na forma de influência religiosa sobre o voto e destacou que hoje ela se dá mais por formação de valores, identidades e pertença do que por transferências diretas de voto.

“É mais correto falar em mediação religiosa do voto do que em transferência de votos”, apontou a pesquisadora.

O estudo registra também que a politização dos templos, que aumentou desde as eleições legislativas dos anos 1990 e se intensificou a partir de 2018, provocou divisões e deixou marcas nas comunidades religiosas. Pastores e fiéis relatam perda de membros e rupturas internas em decorrência de posicionamentos eleitorais explícitos.

“Conheço pastor que lá em 2018 estava fervorosamente apoiando candidaturas, mas que hoje não quer nem tocar nesse assunto, quer esquecer que um dia fez campanha política. Porque com isso ele perdeu um número expressivo [de fiéis] da igreja. E o número não volta. Eu recebi muita gente. Nesse período, eu dialoguei com muita gente que estava machucada. Então, a igreja hoje, quando o assunto é política, se tornou um lugar de pessoas machucadas”, relatou o pastor Lucas Oliveira.

Outra liderança ouvida identifica um movimento interno de reação à politização dos espaços religiosos e relaciona essa postura à tradição protestante de defesa da liberdade de consciência e da separação entre Igreja e Estado.

“Essa consciência faz parte da gênese da maioria dos protestantes, da maioria dos evangélicos”, afirmou o pastor Moisés Blanco, 46 anos, que participa de uma frente de religiosos preocupados com o uso político dos templos.

Radiografia cristã

  • 29% da população brasileira declara-se evangélica.
  • 70% dos evangélicos são pentecostais (dentro do segmento evangélico).
  • 17% são protestantes.
  • 10% correspondem a evangélicos sem igreja.

Denominações entre evangélicos

  • 32% dos fiéis evangélicos pertencem à Assembleia de Deus.
  • 28% declaram pertencer a outras denominações pequenas e médias.
  • 10% são evangélicos sem igreja.
  • 10% são batistas.
  • 7% pertencem à Congregação Cristã.
  • 5% à Igreja Universal.
  • 4% à Igreja do Evangelho Quadrangular.

O catolicismo, segundo o levantamento, representa 50% da população, com distinção entre católicos praticantes (31%) e não praticantes (19%), e níveis de engajamento semanal comparáveis aos evangélicos entre os praticantes.

Metodologicamente, a pesquisa foi realizada por meio de 15 mil entrevistas presenciais em 412 municípios brasileiros, incluindo todas as 27 capitais, realizadas em janeiro e fevereiro deste ano, com margem de erro de 1%.

Ambiente digital da fé

  • 66% dos entrevistados afirmaram usar o WhatsApp como espaço de articulação de comunidades e grupos religiosos online.

Em síntese, o estudo aponta que, embora a religião continue a influenciar valores e o comportamento político fora do templo — especialmente no ambiente digital e nas redes de confiança —, a maioria dos fiéis manifesta rejeição ao uso explícito das práticas religiosas como espaço de proselitismo eleitoral.

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Claudio Vasconcelos é jornalista veterano com vasta experiência em coberturas políticas e esportivas em Sergipe. Natural de Canindé de São Francisco, construiu sua trajetória na imprensa sergipana com foco em jornalismo de raiz, privilegiando apuração rigorosa e compromisso com a informação. Apaixonado pelo futebol e pelos bastidores da política, traz perspectiva experiente e bem fundamentada para cada matéria.