Los Angeles (EUA) – Um júri do Tribunal Superior do Condado de Los Angeles analisa, desde fevereiro, se a Meta e o Google devem ser responsabilizados pelo impacto que suas plataformas teriam causado à saúde mental de Kaley, identificada apenas pelas iniciais KGM. Aos 21 anos, a jovem contou ter chegado a passar 16 horas seguidas no Instagram, verificar notificações durante a madrugada e abrir o aplicativo assim que despertava.
O processo é o primeiro de mais de 2 mil ações semelhantes que acusam grandes empresas de tecnologia de projetar serviços intencionalmente viciantes para usuários menores de idade. TikTok e Snapchat, também citados no litígio original, já firmaram acordos extrajudiciais.
Infância conectada
Kaley disse ter criado uma conta no YouTube aos seis anos. Três anos depois, já mantinha perfil no Instagram, apesar da proibição de acesso a menores de 13 anos declarada pela Meta. Ela declarou que “passava horas no Instagram e no YouTube consumindo vídeos e fotos de outras pessoas”, além de publicar selfies no Instagram e vídeos cantando (YouTube). Segundo o depoimento, criou dezenas de perfis em ambas as plataformas em busca de curtidas.
O comportamento levou ao afastamento do convívio social e, por volta dos 10 anos, aos primeiros sinais de ansiedade e depressão. Posteriormente, a jovem foi diagnosticada com dismorfia corporal. Questionada no tribunal, afirmou não ter apresentado esses sintomas antes do uso intenso das redes.
Posição das empresas
Adam Mosseri, chefe do Instagram, declarou aos jurados que, ainda que 16 horas de uso pareçam “problemáticas”, o caso não configura dependência. Já Mark Zuckerberg, CEO da Meta, defendeu que a companhia mantém, “desde sempre”, política de exclusão de contas de menores de 13 anos, mas admitiu que o controle “não é perfeito”.
Documentos internos apresentados pela acusação mostram executivos discutindo estratégias para ampliar a presença infantil nas plataformas. Ao ser confrontado, Zuckerberg afirmou não ver contradição entre tais debates e a norma oficial.
O Google, dono do YouTube, sustenta que oferece versões específicas para crianças – como o YouTube Kids – e reforça a necessidade de supervisão parental. A defesa ainda atribui parte dos problemas psicológicos de Kaley ao ambiente familiar.
Depoimentos de pais
Lori Schott e Aaron Ping, que acompanham o julgamento mesmo sem integrar a ação, alegam que conteúdos prejudiciais no Instagram e no YouTube contribuíram para o suicídio de seus filhos, Annalee (18) e Avery (16). “Eles esconderam evidências de que os aplicativos eram viciantes”, declarou Schott. Ping lembrou ter estabelecido acordos de tempo de tela com a escola do filho, sem sucesso.
O que está em jogo
Se o júri concluir que as empresas criaram deliberadamente produtos viciantes, Meta e Google podem enfrentar indenizações históricas, além de influenciar milhares de casos pendentes na Justiça dos Estados Unidos. Ainda que absolvidas, a crescente pressão política pode acelerar iniciativas para limitar o acesso de crianças às redes e impor novas obrigações de proteção.
A decisão, aguardada para as próximas semanas, pode redefinir a forma como plataformas digitais são avaliadas quanto à segurança de jovens usuários e balizar futuras discussões sobre responsabilidade civil da indústria de tecnologia.
Com informações de G1
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