O cientista político Gabriel Rezende, doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que o bolsonarismo perdeu fôlego após a recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador afirmou que a decisão judicial reduziu a capacidade de mobilização do líder e abriu disputa interna pelo comando da direita.
Rezende, que lança em outubro o livro A ascensão do populismo de direita no Brasil (Editora Appris), classifica o fenômeno bolsonarista como a quarta onda populista do país. Segundo ele, o movimento surgiu em meio às crises política, econômica e social entre 2013 e 2016, combinando discurso antielite, nacionalismo, referências religiosas e uso intensivo das redes sociais.
Quatro ondas populistas
Na análise histórica do pesquisador, o Brasil vivenciou:
- primeira onda (décadas de 1930 a 1960);
- segunda onda (anos 1990, com Fernando Collor);
- terceira onda, de esquerda, na virada dos anos 2000; e
- quarta onda, de direita, iniciada em 2016 e agora em declínio.
Elementos da ascensão
Rezende identifica cinco pilares que impulsionaram Jair Bolsonaro em 2018: Operação Lava Jato, apoio de lideranças evangélicas, adesão do agronegócio, forte presença digital e proximidade com militares. “Esses fatores criaram a tempestade perfeita para o avanço do populismo de direita”, resumiu.
Papel do Judiciário
O especialista argumenta que o Supremo Tribunal Federal (STF) atuou como principal contraponto institucional ao governo Bolsonaro, enquanto a Procuradoria-Geral da República “não conseguiu ou não quis” avançar em investigações. “O Judiciário foi responsivo às demandas que outros Poderes não resolveram”, explicou.
Disputa pelo legado
Com Bolsonaro proibido de conceder entrevistas e alvo de novas ações judiciais, o cientista político enxerga um vácuo de liderança na direita. Entre os nomes que tentam herdar o capital político bolsonarista, ele cita o pastor Silas Malafaia, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, os filhos do ex-presidente e o governador paulista Tarcísio de Freitas.
Rezende também observa falta de definição sobre a sucessão no campo progressista caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não concorra em 2026. “O momento é de rearranjo político”, concluiu.
Fonte: Agência Brasil
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