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A popularização dos medicamentos subcutâneos para tratamento da obesidade — conhecidos como canetas emagrecedoras — tem gerado debates sobre uso, efeitos e consequências sociais. Embora esses fármacos apresentem resultados expressivos e contem com o endosso de sociedades médicas, há relatos de uso sem acompanhamento profissional e por pessoas sem diagnóstico de obesidade.
A professora Fernanda Scagluiza, vinculada às faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), abordou o tema no episódio “O boom das canetas emagrecedoras” do programa Caminhos da Reportagem, exibido pela TV Brasil na segunda-feira, 27 de abril de 2026.
O que é a “economia moral da magreza”
Segundo Scagluiza, a expressão refere-se à atribuição de valores morais distintos aos corpos: magreza e musculatura são muitas vezes interpretadas como sinal de virtude, esforço e autodisciplina; corpos gordos, por outro lado, são frequentemente estigmatizados com estereótipos de preguiça, falta de higiene ou incompetência. Essa diferenciação gera privilégios sociais para pessoas magras e opressão para pessoas gordas, explica a pesquisadora.
Ela também relacionou padrões estéticos a processos históricos e à exclusão. Padrões de beleza, que mudam ao longo do tempo, acabam diminuindo a diversidade corporal ao definir um ideal que deixa muitas pessoas de fora — situação que sustenta mercados interessados em vender soluções para adequação ao padrão.
Na avaliação da professora, houve avanços com movimentos de positividade corporal a partir da década de 2010, mas a chegada das canetas emagrecedoras pode intensificar a volta ao padrão de magreza extrema, um fenômeno observado inclusive no universo da moda, onde roupas “tamanho zero” estariam ficando mais largas nas modelos já muito magras.
Impactos na saúde e na vida das mulheres
Scagluiza afirmou que a difusão desses medicamentos convive com um contexto de maior conservadorismo e retrocessos nas pautas de gênero, distraindo mulheres de outras lutas sociais. Ela apontou que a medicalização do corpo transforma fenômenos sociais — como a alimentação — em questões tratadas quase exclusivamente por remédios e intervenções médicas.
Em estudo em submissão citado pela pesquisadora, participantes que usaram as canetas chegaram a classificar o tratamento como “vacina contra fome”.
O relatório preliminar citado indica comportamentos de restrição alimentar associados ao uso do medicamento, uso dos efeitos colaterais (náusea e vômito) para reduzir ingestão e uma visão da alimentação pautada por normas biomédicas em vez de rituais sociais e culturais. A pesquisadora alertou para riscos à saúde física e mental e para a perda do caráter simbólico da alimentação, que é também um direito humano ligado à vitalidade e à proteção contra doenças.
O episódio do Caminhos da Reportagem está disponível no canal da TV Brasil no YouTube; assista ao programa completo aqui.




