A cerca de três quilômetros do porto de Dakar, no Senegal, a Ilha de Gorée recebe milhares de visitantes por ano e tem no turismo a principal fonte de renda para seus cerca de 1,7 mil moradores. No cais, vendedora Fama Sylla aborda turistas que aguardam a balsa — trajeto de menos de meia hora — e convida-os a conhecer seu ponto de vendas de bijuterias e artesanato.
Gorée ocupa 17 hectares — menos do que 25 campos de futebol — e está inscrita como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco desde 1978. A posição na linha do Atlântico fez da ilha um entreposto do tráfico transatlântico de escravizados, operado por portugueses, holandeses, ingleses e franceses entre os séculos 15 e 19.
Casa dos Escravos e memória
Na ilha funciona a Casa dos Escravos, prédio de dois andares onde pessoas capturadas eram mantidas antes de serem embarcadas pela chamada “Porta do Não Retorno”. O local é tratado como centro de memória sobre a escravidão e atrai visitantes interessados na história do período.
Em março, as Nações Unidas caracterizaram a escravização de africanos como o “mais grave crime já cometido contra a humanidade” — declaração que precedeu a visita da Agência Brasil a Gorée no fim de abril.
Turismo como fonte de renda
Segundo o censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD), a ilha tem cerca de 1.700 habitantes. Para grande parte dessa população, o fluxo turístico é a principal alternativa econômica: vendedores, guias e artesãos dependem da visitação para obter receita.
Fama Sylla resume a situação: “O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso, vivemos do turismo”. Chaua Sall, que vende esculturas de madeira, diz receber turistas de diversos países — França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Itália — e trabalha com familiares no atendimento.
A vendedora Aminata Fall aprendeu saudações em várias línguas, inclusive português, para atrair visitantes. Ela afirma que as únicas atividades econômicas relevantes na ilha são a pesca e o comércio ligado ao turismo: “As mulheres têm lojas, e os homens pescam ou trabalham como guias turísticos”.
Artes e educação
No ateliê de Cheikh Sow, turistas acompanham a produção de quadros feitos com cola e serragem colorida. O artista conta que dedicou-se à pintura para sustentar a família e tentar melhorar as condições de vida, incluindo a construção de moradias.
Os guias locais, como Mamadou Bailo Diallo, fazem um a dois passeios diários e contextualizam a visita histórica com relatos como o da passagem de Nelson Mandela por uma cela da Casa dos Escravos — episódio que, segundo o guia, emociona visitantes. Na ilha há um monumento em homenagem a Mandela com a inscrição “Ao fazermos a nossa luz brilhar, oferecemos aos outros a oportunidade de fazer o mesmo”.
Além de turismo e comércio, Gorée funciona como espaço de educação: excursões escolares, inclusive de instituições do Catar, percorrem a ilha transformando a visita em aula a céu aberto sobre memória e direitos humanos.
O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Exterior.
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