Guerra contra o Irã eleva riscos ambientais e climáticos, aponta relatório

Robson Alves
6 Min Leitura

Transmissão: Band

Apenas um mês após o início dos confrontos envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, um levantamento do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (Ceobs) mostra aumento de riscos ambientais e climáticos na região. O estudo indica que além das perdas humanas, a continuidade das hostilidades ameaça a saúde pública, ecossistemas terrestres e marinhos, recursos naturais e aquíferos.

Os pesquisadores do Ceobs registraram mais de 300 incidentes com algum grau de dano ambiental nas três primeiras semanas de conflito. Os episódios foram contabilizados em diversos países da região, entre eles Irã, Iraque, Israel, Kuwait, Jordânia, Chipre, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã e Azerbaijão.

Relatório de riscos

O levantamento enumera os principais perigos associados aos combates:

Riscos nucleares: o relatório menciona ataques à instalação de enriquecimento de Natanz e às imediações do reator de Bushehr, no Irã, e bombardeios em áreas próximas a instalações nucleares israelenses no deserto de Negev e na Zona Industrial de Rotem. A Agência Internacional de Energia Atômica e a Organização Mundial da Saúde expressaram preocupação sobre a possibilidade de uma emergência nuclear na região.

Infraestrutura de combustíveis fósseis: dezenas de unidades de produção, processamento e armazenamento de petróleo e gás foram danificadas ou tiveram atividades interrompidas, com incêndios em depósitos e risco de novos vazamentos, que liberam gases do efeito estufa e poluentes.

Golfo Pérsico: embora a maioria das embarcações atacadas pelo Irã tenha sido de carga a granel e não petroleiros, os pesquisadores destacam o risco persistente de derramamentos e a limitada capacidade de resposta. Portos e instalações costeiras, como em Bandar Abbas, e navios afundados também podem ser fontes de poluição.

Mar Vermelho: ações dos Houthis contra embarcações e retaliações por parte de Israel e dos EUA têm provocado episódios de poluição, com potencial impacto sobre o ecossistema marinho e a pesca.

Consequências globais: a elevação de preços e a redução de oferta de gás têm levado alguns países a recorrer temporariamente ao carvão. Além disso, a queda nas exportações de ureia e fertilizantes encarece insumos agrícolas, afetando produtores em países importadores como Sudão e Somália, enquanto beneficia receitas de exportação de nações como a Rússia.

Custo climático

Estimativas do Climate and Community Institute apontam que, em 14 dias, o conflito no Irã gerou cerca de 5 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Mantido o ritmo inicial, as emissões mensais poderiam ultrapassar 10 milhões de toneladas.

O professor Wagner Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em geopolítica e meio ambiente, alertou que países envolvidos na produção de combustíveis fósseis tornam-se alvos estratégicos e que ataques a instalações de processamento e postos de combustível provocam queima de materiais que intensifica emissões de gases de efeito estufa.

Relatórios do Instituto Talanoa destacam que, se o setor militar global fosse um país, ocuparia a quinta posição entre os maiores emissores, com cerca de 2,7 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (GTCO2e), o que corresponde a 5,5% das emissões mundiais. A lista citada no estudo indica China (15,5 GTCO2e), Estados Unidos (5,9 GTCO2e), Índia (4,4 GTCO2e), Rússia (2,6 GTCO2e), Indonésia (GTCO2e) e Brasil (GTCO2e), com base em fontes como EDGAR, CEOBS, Scientists for Global Responsibility e Global Carbon Project.

O levantamento observa dificuldades no cálculo das emissões militares devido à transparência limitada dos dados: em 2025, apenas Alemanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria e Noruega reportaram dados desagregados desse tipo de emissão. Conflitos recentes mostram que as guerras podem provocar picos súbitos de emissões, citando a guerra na Ucrânia (cerca de 311,4 GTCO2e ao longo de quatro anos) e os ataques israelenses na Faixa de Gaza (33,2 MtCO2e em 15 meses).

Segundo Wagner Ribeiro, as emissões vinculadas a conflitos ocorrem ao longo de toda a cadeia militar: logística para transporte de tropas e material, uso de combustíveis na propulsão de mísseis e a energia necessária para produzir equipamento bélico, entre outros elementos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) também expressou preocupação com os danos ambientais generalizados decorrentes da escalada de violência e pediu o fim das hostilidades para proteger a saúde humana e o meio ambiente. Irã e Líbano apresentaram reclamações às Nações Unidas acusando Israel de ecocídio, termo empregado para descrever destruição maciça e duradoura do meio ambiente por atos ilegais ou irresponsáveis. Em documento, o Irã qualificou como crime ambiental o ataque a reservatórios de combustível em Teerã e pediu responsabilização em fóruns internacionais.

Com informações de Agência Brasil

Compartilhe essa Notícia
Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.