Decreto de Trump rotula Antifa como terrorista e eleva temor de repressão nos EUA

Robson Alves
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta semana um decreto que classifica o movimento Antifa como organização terrorista. Especialistas ouvidos por universidades brasileiras consideram a iniciativa uma das ações mais severas já tomadas pelo governo norte-americano contra a dissidência política, com potencial para restringir o direito constitucional à livre manifestação.

Medida após assassinato de aliado conservador

O decreto foi anunciado dias depois do assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, baleado em um campus universitário em Utah. Um estudante de 22 anos de uma faculdade técnica foi detido, mas a investigação ainda não comprovou vínculo do suspeito com qualquer grupo organizado. Mesmo antes da prisão, Trump atribuiu o crime a uma “esquerda radical” e, em seguida, incluiu Antifa na lista de terroristas.

Ausência de estrutura formal

Para o professor Thiago Rodrigues, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Antifa é uma pauta antifascista abraçada por diversos coletivos, e não uma entidade com hierarquia ou comando central. “Trata-se de uma tática motivada por ideologia antifascista e anticapitalista. Classificar isso como terrorismo permite enquadrar qualquer opositor”, afirmou.

Peso do termo terrorismo nos EUA

A legislação norte-americana sobre terrorismo ganhou força após os atentados de 11 de setembro de 2001. A Ordem Executiva 13.224 autoriza o bloqueio de ativos e o corte de financiamento de indivíduos ou entidades acusadas de terrorismo. O novo ato presidencial determina que todas as agências federais “investiguem, interrompam e desmantelem” quaisquer operações ilegais atribuídas à Antifa ou a pessoas que aleguem agir em seu nome.

Comparações com regimes autoritários

A professora Clarissa Nascimento Forner, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), vê a classificação como facilitadora de práticas repressivas contra movimentos progressistas. “Usar o termo terrorismo mobiliza significados que legitimam maior violência estatal”, destacou.

Na mesma linha, Kai Lehmann, do Instituto de Relações Internacionais da USP, comparou a decisão a ações de governos autoritários em países como Rússia e Hungria: “É típica de quem tenta enfraquecer setores da sociedade civil considerados hostis”.

Repercussões para o Brasil

Trump já havia rotulado cartéis de drogas como terroristas e pressionado o Brasil a adotar postura semelhante contra organizações criminosas locais. Para Clarissa Forner, a nova ordem pode intensificar essa pressão, sobretudo porque o país também abriga grupos que defendem a pauta antifascista.

Lehmann observa, contudo, que barreiras legais tornam improvável uma replicação imediata da medida. “A Justiça brasileira possui hoje maior independência; caberiam recursos judiciais contra algo semelhante”, disse.

Sem uma estrutura formal do movimento Antifa, analistas temem que a nova classificação abra caminho para criminalizar qualquer manifestação contrária ao governo norte-americano.

Fonte: Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.