Brasília – A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara ouviu nesta quarta-feira (10) o hacker Walter Delgatti Netto, condenado por invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Durante a sessão, a deputada Carla Zambelli (PL-SP) e parlamentares aliados buscaram descredibilizar o depoimento do hacker, enquanto o colegiado avalia a perda do mandato da parlamentar, sentenciada a 10 anos de prisão como mandante do crime.
Delgatti foi responsabilizado pela invasão de 4 de janeiro de 2023, quando inseriu no sistema um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Já Zambelli, segundo a sentença, teria articulado a ação para questionar a segurança do Judiciário e reforçar suspeitas infundadas sobre a eleição de 2022.
Embate na videoconferência
Presa na Itália e respondendo a processo de extradição, a deputada participou por videoconferência. Ela disse que Delgatti seria mentiroso, citando suposta visita dele ao Ministério da Defesa: “Ou acreditamos em um hacker ou em um general de quatro estrelas”. O hacker rebateu: “Ambos são réus”, lembrando que o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira é acusado de tentativa de golpe de Estado no STF.
Zambelli também negou que Delgatti tenha passado dias em seu apartamento. Ele sustenta que ficou no local entre 14 e 20 dias e apresentou a existência de câmeras de segurança como possível prova.
Manobras e prazos
Parlamentares favoráveis à cassação afirmam que a oitiva de testemunhas busca retardar a decisão. O relator, deputado Diego Garcia (Republicanos-PR), admitiu pedir a íntegra dos autos, o que pode estender a análise. A Constituição determina que deputados condenados com sentença transitada em julgado perdem o mandato, mas a cassação precisa ser confirmada pelo plenário.
Acusações e defesas
No depoimento, Delgatti reafirmou ter conhecido Zambelli em agosto de 2022 e dito que recebeu dela o pedido para invadir sistemas do Judiciário em troca de promessa de emprego. A deputada nega. Questionado sobre provas materiais, o hacker explicou que apagava mensagens diariamente por estar proibido de acessar a internet, mas disse que a Polícia Federal encontrou registros no celular apreendido da parlamentar.
Aliados da deputada apontaram contradições nos relatos dele, sobretudo sobre datas. Delgatti atribuiu os desencontros à dificuldade de recordar cronologias enquanto preso, mas enfatizou que não mudou o teor das declarações.
Discussão sobre alvarás e vídeos
Zambelli argumentou que a pena de 10 anos decorre da emissão de 15 alvarás de soltura por um robô criado por Delgatti. O hacker respondeu que a majoração se deve ao caráter continuado do crime e não aos alvarás, que jamais chegaram às varas judiciais.
Ela ainda tentou associar Delgatti a vídeos de pedofilia encontrados em equipamentos apreendidos pela PF. O hacker afirmou não ter aberto os arquivos e declarou que outros hackers usam esse tipo de conteúdo para extorsão.
Posicionamentos na comissão
A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) qualificou as oitivas como abuso de prerrogativa e defendeu que a cassação seja oficializada pelo presidente da Casa. Já o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que Zambelli é vítima de perseguição política e prometeu mobilização contra a perda de mandato.
Não há prazo para a CCJ concluir o parecer.
Fonte: Agência Brasil
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