A tendência batizada de “treinando caso ela diga não” voltou a circular com força no TikTok brasileiro nos últimos meses e provocou reação de usuários, especialistas, parlamentares e do próprio aplicativo. O formato mostra homens encenando pedidos de namoro ou casamento; na sequência, aparece a legenda que dá nome à trend e, por fim, os criadores simulam socos, chutes ou golpes com faca para sugerir o que fariam se fossem rejeitados.
Levantamento do g1 analisou vinte publicações entre 2023 e 2025. Esses vídeos partiram de perfis com bases que variam de 883 a 177 mil seguidores e somaram mais de 175 mil interações. Após a repercussão, o TikTok informou que o material “viola as Diretrizes da Comunidade” e foi excluído assim que localizado. A empresa declarou ainda manter uma equipe de moderação dedicada a identificar conteúdo de ódio ou incentivo à violência.
Contexto de violência crescente
A popularização da trend ocorre enquanto o país registra números inéditos de feminicídio. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que 1.470 mulheres foram mortas por esse crime em 2025, média de quatro por dia, superando os 1.464 casos de 2024 e estabelecendo novo recorde histórico.
Casos recentes ilustram o risco que a internet ironiza. No Rio de Janeiro, uma jovem de 20 anos sobreviveu após levar mais de 15 facadas de um homem que insistia em namorá-la. Em Pernambuco, uma mulher de 22 anos foi esfaqueada e teve o corpo incendiado por um ex-colega de trabalho depois de rejeitar um relacionamento. Em Minas Gerais, uma vendedora de 38 anos morreu ao ser atacada com um canivete durante a negociação de um celular, também após recusar uma investida.
Especialistas apontam falha de moderação
Para a pesquisadora Raquel Saraiva, do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), conteúdos que estimulam violência geram alto engajamento e, por isso, tendem a permanecer mais tempo no ar. Ela avalia que, embora as redes sociais proíbam esse tipo de postagem, a fiscalização ainda é insuficiente.
Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapear, relaciona a trend a correntes misóginas como o movimento red pill. Segundo ele, jovens veem nessas publicações um modelo de comportamento que reforça a ideia de superioridade masculina.
Reação no Congresso e no Ministério Público
A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) acionou o Ministério Público para investigar perfis que propagam a tendência, alegando que os vídeos naturalizam a violência de gênero. Já o deputado Pedro Campos (PSB-PE) protocolou requerimento na Comissão de Segurança Pública da Câmara solicitando que a Procuradoria-Geral da República apure eventuais crimes de apologia à violência contra a mulher. O colegiado deve analisar o pedido nesta terça-feira (10).
Usuários divididos
Na plataforma, parte do público condena os vídeos: comentários apontam que “violência contra mulheres não é piada” e classificam o conteúdo como preocupante. Outros internautas, no entanto, reagem com risadas ou afirmam que se trata apenas de humor. Muitos autores aparentam ser adolescentes ou jovens adultos.
Apesar de alguns criadores terem retirado as postagens ou de elas deixarem de aparecer nas buscas, não há confirmação se a exclusão partiu dos próprios usuários ou da empresa.
TRANSMISSÃO: Record
A discussão sobre a moderação de vídeos violentos nas redes permanece aberta, enquanto entidades cobram atuação mais rígida para conter conteúdos que podem incentivar ataques reais a mulheres.
Com informações de G1
Siga o Foco SE e entre no nosso grupo de notícias de Sergipe.



