São Paulo — Um relatório técnico produzido pelo Núcleo de Observação Digital (NOAD) da Polícia Civil de São Paulo aponta que a plataforma de mensagens Discord apresenta brechas de moderação que permitem a prática de crimes ao vivo contra crianças e adolescentes. O documento foi entregue na terça-feira, 10 de fevereiro, ao Ministério Público (MP) e destaca demora na remoção de servidores, dificuldade para interromper condutas ilegais em andamento e obstáculos na identificação dos responsáveis.
De acordo com o NOAD, criado no fim de 2024 para suprir lacunas de fiscalização consideradas atribuição das próprias empresas de tecnologia, as falhas expõem diariamente jovens usuários a riscos como violência sexual, automutilação e instigação ao suicídio. O material foi recebido pelo procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, que deverá avaliar eventuais medidas para reforçar a moderação na plataforma.
Monitoramento em tempo integral
O núcleo mantém vigilância 24 horas sobre ambientes digitais frequentados sobretudo pelo público infanto-juvenil. Atualmente, mais de 1,2 mil alvos são acompanhados. Desde o início das atividades, o trabalho colaborou para o resgate de 359 crianças e adolescentes em situação de risco iminente, segundo a Secretaria da Segurança Pública; o Ministério Público cita 358 ocorrências.
“O trabalho do NOAD demonstra que o combate aos crimes digitais exige atuação técnica, permanente e integrada. Estamos falando da proteção direta de crianças e adolescentes em ambientes virtuais que precisam ser mais seguros e responsáveis”, afirmou o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves. Ele ressaltou que, ao encaminhar o relatório ao MP, a polícia reforça a necessidade de as plataformas assumirem papel ativo na moderação de conteúdo.
Estrutura e métodos de investigação
Considerado iniciativa pioneira no país no enfrentamento à violência digital, o NOAD reúne policiais civis, militares e peritos especializados que trabalham de forma integrada. Entre as estratégias estão os “observadores digitais” — agentes infiltrados em comunidades online em regime contínuo, responsáveis por mapear redes criminosas, localizar vítimas e reunir provas que subsidiem inquéritos.
As informações coletadas são consolidadas em relatórios de inteligência capazes de embasar pedidos judiciais, como mandados de busca, prisões ou internações. Além da investigação, o núcleo atua preventivamente, acionando outras unidades policiais quando identifica risco iminente às vítimas.
Imagem: Divulgação
Demora na exclusão de servidores
A Polícia Civil aponta que, mesmo diante de crimes transmitidos em tempo real, há demora significativa para a exclusão dos servidores no Discord. O relatório cita reincidência desse tipo de falha em plataformas voltadas a jogos on-line e defende mecanismos mais ágeis de resposta para conter a disseminação de material ilegal e proteger os usuários mais vulneráveis.
Com o documento em mãos, o Ministério Público deve analisar quais providências podem ser adotadas para aumentar a segurança nos ambientes monitorados e garantir que os responsáveis pelos crimes contra menores sejam identificados e punidos.
Com informações de G1
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