Brasília – O telefone público que marcou a paisagem urbana brasileira desde os anos 1970 está em processo de retirada definitiva. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estima que cerca de 38 mil orelhões ainda ocupem calçadas em todo o país, mas a remoção em massa teve início neste mês de janeiro, depois do fim das concessões de telefonia fixa.
Projeto nacional de 1971
O desenho oval inconfundível foi criado em 1971 pela arquiteta Chu Ming Silveira, nascida em Xangai em 1941 e radicada no Brasil desde a infância. À época, ela integrava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB) e buscava uma solução que protegesse o usuário do barulho externo e das intempéries. A forma de ovo, lançada em janeiro de 1972 nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, oferecia abrigo contra sol e chuva, além de melhorar a acústica das ligações.
Rapidamente batizado de “orelhão”, o equipamento tornou-se símbolo nacional e passou a ser reproduzido em outras nações, como Peru, Angola, Moçambique e China. No interior paulista, ainda hoje existem mais de 550 unidades ativas, de acordo com levantamentos locais.
Da ficha telefônica ao cartão
No início, as chamadas eram pagas por fichas metálicas; mais tarde, moedas e cartões magnéticos assumiram a função. Havia ainda a ligação “a cobrar”, que transferia o custo da conversa para quem atendia. Até o começo dos anos 2000, orelhões eram essenciais porque grande parcela da população não possuía telefone residencial.
Declínio com o celular
A popularização do celular tornou os aparelhos quase obsoletos. Dados da Anatel mostram que, em 2020, o país ainda contava com aproximadamente 202 mil cabines. Hoje, mais de 33 mil continuam em funcionamento e cerca de 4 mil permanecem em manutenção, mas esse quadro tende a desaparecer nos próximos anos.
As operadoras Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica, responsáveis pela infraestrutura, deixaram de ter obrigação legal de manter os telefones públicos após o término dos contratos de concessão em 2025. O regulamento prevê a permanência de orelhões somente em localidades sem cobertura de rede celular, e apenas até 2028.
Presença no cinema e legado
Mesmo em declínio, o orelhão segue presente no imaginário popular. O cartaz do filme “O Agente Secreto”, vencedor do Globo de Ouro e escolhido pelo Brasil para disputar o Oscar 2026, traz o ator Wagner Moura dentro da cabine segurando o fone, evidenciando o apelo nostálgico do aparelho. A criadora do design, Chu Ming Silveira, que morreu em 1997, permanece reconhecida por ter desenvolvido um projeto adaptado ao clima e ao cotidiano brasileiros.
Com a desmontagem iniciada neste mês, muitas estruturas já inativas serão retiradas, enquanto as que ainda prestam serviço funcionarão até que a expansão do sinal móvel elimine a necessidade do telefone público. Assim, um dos objetos mais emblemáticos das ruas brasileiras se despede após meio século de história.
Com informações de G1
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