Mulheres negras jovens lideram desemprego no Brasil com taxa de 24,7%

Robson Alves
5 Min Leitura

Pesquisa nacional expõe desigualdade persistente no mercado de trabalho. Mesmo com avanços na renda, informalidade e desocupação seguem castigando esse grupo.

Apesar de alguns avanços no mercado de trabalho, como a redução do desemprego e o aumento da renda, as mulheres negras jovens ainda enfrentam os piores índices em diversas métricas, como taxa de desocupação, informalidade e rendimento. Essa realidade foi revelada em um estudo realizado pela Rede Multiatores MUDE com Elas, em parceria com o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), que se baseou em dados da PNAD Contínua 2025, pesquisa do IBGE sobre o mercado de trabalho no Brasil.

Embora haja melhorias nos índices de educação formal e renda, as desigualdades estruturais persistem, especialmente para mulheres entre 14 e 29 anos. Na faixa etária de 14 a 17 anos, a taxa de desemprego entre as mulheres negras chega a 24,7%, um índice 1,4 vezes maior que o dos homens brancos da mesma idade. Para a faixa de 18 a 24 anos, considerada um período crítico de transição entre a escola e o trabalho, a disparidade se intensifica, apresentando uma taxa de desocupação de 16,5% para mulheres negras, 1,6 vezes maior do que a dos homens brancos.

Entre as mulheres negras de 25 a 29 anos, a taxa de desemprego é de 10,3%, quase o dobro da registrada entre as mulheres brancas e 2,8 vezes maior do que a dos homens brancos.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando no mercado de trabalho e na sociedade brasileira”, afirma Shirley Santos, coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert.

Shirley destaca que a localização geográfica também afeta as oportunidades disponíveis, uma vez que mulheres de áreas periféricas enfrentam desafios significativos em relação à mobilidade, infraestrutura e acesso a serviços públicos de qualidade.

A disparidade na renda é igualmente alarmante. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras representou apenas 46,5% do rendimento dos homens brancos, uma diferença que se mantém quase inalterada nos últimos anos. A taxa de informalidade entre jovens negras é de 39,1%, cerca de 10% superior à registrada entre jovens brancas. O único grupo com taxas mais altas de informalidade são os jovens homens negros, que apresentam um índice de 44,2%.

Esses desafios também se refletem em um alto nível de desalento, condição em que indivíduos desistem de procurar trabalho. As mulheres negras representam 38,7% dos jovens desalentados no país, enquanto os homens negros somam 36,1%. Na faixa etária de 25 a 29 anos, a participação das mulheres negras chega a 44,2%.

Na Região Metropolitana de São Paulo, essa desigualdade é ainda mais evidente: mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos ganham R$ 3.926. Entre 25 e 29 anos, as mulheres negras têm rendimento médio de R$ 2.569, em comparação com R$ 5.323 dos homens brancos.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. A experiência das organizações da sociedade civil é crucial para entender dimensões que muitas vezes os dados não conseguem captar integralmente”, complementa Shirley.

O estudo também enfatiza que, embora as cotas raciais sejam um passo importante para reduzir desigualdades, elas não são suficientes. Shirley argumenta que políticas estruturantes são necessárias para promover a permanência, mobilidade social e acesso a posições de liderança.

Entre as iniciativas que demonstram resultados positivos estão: políticas de cotas raciais e sociais, programas de permanência estudantil, ampliação do acesso a creches, programas de qualificação profissional para a juventude negra e metas de diversidade no setor privado.

Além disso, é necessário implementar políticas públicas de reparação e mecanismos de financiamento voltados para a melhoria dessas ações. “O enfrentamento das desigualdades raciais exige investimento público, compromisso institucional e participação social”, conclui Shirley Santos.

Compartilhe essa Notícia
Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.