Quatro adolescentes são investigados pela Polícia Civil de Santa Catarina pela morte do cão comunitário Orelha, ocorrido em janeiro em um bairro de alto padrão de Florianópolis. O animal, que vivia havia cerca de dez anos na Praia Brava, não resistiu a ferimentos provocados por agressões registradas em vídeo. O mesmo grupo é apontado como responsável por tentativa de afogamento de outro cachorro da região, o Caramelo, que sobreviveu.
O episódio mobilizou moradores, gerou manifestações nas redes sociais e levou a primeira-dama, Janja da Silva, a declarar que o caso “é um alerta doloroso sobre uma geração exposta, desde cedo, a discursos e conteúdos digitais que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento”. Até o momento, não há indícios de que os adolescentes mantivessem vínculos com comunidades virtuais que incentivam maus-tratos, mas especialistas avaliam que o fato ressalta a urgência de orientar crianças e jovens sobre direitos dos animais.
Submundo on-line incentiva zoosadismo
Pesquisadores apontam a existência de fóruns e grupos que defendem e lucram com o zoosadismo, ato de ferir ou torturar animais por prazer, inclusive sexual. Esse conteúdo circula em plataformas abertas e aplicativos de mensagem, atraindo público de diferentes faixas etárias. Segundo o procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, tais práticas funcionam como marcador de processos de radicalização.
Investigações internacionais dão dimensão do problema. Em 2023, a BBC revelou uma rede que pagava indonésios para filmar a tortura e morte de filhotes de macaco-de-cauda-longa; clientes estavam nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países. No mesmo ano, a CNN mostrou expansão de grupos que mutilam gatos para obter lucro, migrando para Telegram, X e YouTube. Três meses depois, dois adolescentes britânicos foram presos por matar filhotes de gato em Londres.
Alcance e lucro em números
Uma coalizão internacional formada por 45 organizações afirma ter recebido, somente em 2024, denúncias envolvendo mais de 80 mil links suspeitos de abuso animal. Análise de dois mil links indicou a presença de mil animais de 53 espécies diferentes; 108 eram ameaçadas de extinção, como orangotangos e gorilas. Apenas 36% do material havia sido removido pelas plataformas, e quase 90% estava no Facebook ou Instagram. Diante da pressão, o Reino Unido passou a aplicar multas de até 18 milhões de libras (cerca de R$ 130 milhões) ou 10% do faturamento anual global das empresas que não retirarem o conteúdo.
Legislação brasileira e crescimento de processos
No Brasil, maltratar animais é crime previsto pela Lei de Crimes Ambientais. A pena geral é de três meses a um ano de detenção, mas, desde 2020, agressões contra cães e gatos podem resultar em reclusão de dois a cinco anos. Levantamento do Conselho Nacional de Justiça, publicado pelo jornal O Globo, mostrou aumento de 1.400% nos processos por maus-tratos a animais a partir de 2021. Ativistas, no entanto, criticam a reversão de penas em medidas alternativas no caso de espécies silvestres e pedem equiparação das sanções.
Imagem: Reprodução
Na mesma semana da morte de Orelha, outro cão comunitário, Abacate, foi baleado em Toledo (PR) e morreu durante cirurgia. A polícia investiga o autor do disparo, reforçando a preocupação com a escalada de violência animal no país.
Apesar de ainda não haver ligação comprovada entre os suspeitos de Florianópolis e redes de zoosadismo, especialistas defendem ações conjuntas de família, escola e órgãos públicos para prevenir a exposição de jovens a ambientes digitais que glamourizam a crueldade e geram lucro com o sofrimento de animais.
Com informações de G1
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