A canjica e a pamonha escondem um risco real para quem lida com sobrepeso. Nutróloga alerta: não é só a comida que pesa, mas a pressão social e a quebra da rotina.
As festas juninas são momentos de celebração, tradição e pratos típicos que trazem à mesa delícias como canjica, pamonha, bolo de milho, arroz-doce, paçoca, pé de moleque, curau e quentão. Contudo, para muitas pessoas que enfrentam sobrepeso ou obesidade, esse período pode ser mais desafiador do que prazeroso.
A médica nutróloga Dra. Mariana Wogel ressalta que o impacto das festas vai além do consumo excessivo de alimentos. Segundo ela, “O problema não está apenas na comida típica. O que pesa para muita gente é o conjunto da experiência: a quebra da rotina, o apelo emocional, a pressão social para comer, a sensação de que é preciso aproveitar tudo e, depois, a culpa por ter exagerado.”
Esse contexto é particularmente complicado para aqueles que já lutam com a balança. “Muitas pessoas chegam às festas juninas já tentando se controlar, já com medo de exagerar. Quando entram em contato com um ambiente de fartura, memórias afetivas e estímulo constante à comida, acabam oscilando entre contenção excessiva e perda de controle”, explica a especialista.
Dra. Mariana também destaca que essa oscilação não deve ser vista como simples falta de disciplina. “Quem enfrenta dificuldade com o peso não lida apenas com uma questão de força de vontade. Existem fatores metabólicos, hormonais, emocionais e comportamentais envolvidos. Em períodos festivos, tudo isso tende a ficar mais sensível.”
Outro ponto que merece atenção é o ciclo de compensação que se instala nessas ocasiões. “A pessoa exagera em uma festa, sente culpa, promete que no dia seguinte vai compensar com jejum, restrição ou corte radical. O problema é que isso muitas vezes aumenta a fome, piora a relação com a comida e favorece novos episódios de excesso”, alerta.
O ambiente social também influencia nesse cenário. “Nas festas juninas, a comida carrega afeto, memória e convivência. Em muitas situações, recusar um prato pode ser visto como desfeita, e isso gera desconforto. A pessoa come para participar, para agradar, para não se sentir deslocada, e não necessariamente porque está com fome física”, observa a Dra. Mariana.
A quebra de rotina também contribui para o descontrole. Horários irregulares, mais eventos sociais, noites mal dormidas e um consumo elevado de preparações calóricas formam uma combinação que dificulta a autorregulação, especialmente entre aqueles que já têm tendência à fome emocional ou impulsividade alimentar.
Para lidar com esse período, a médica sugere que as pessoas evitem entrar nas festas com uma mentalidade punitiva. “O ideal não é pensar em perfeição. É pensar em consciência. A pessoa não precisa passar a festa em guerra com a comida, mas também não deve viver junho inteiro no automático. O equilíbrio começa quando ela entende seus gatilhos e faz escolhas mais possíveis dentro da própria realidade,” afirma.
Entre as orientações que a especialista menciona, destacam-se evitar longos períodos em jejum antes dos eventos, não transformar exceções em regra diária e abandonar a lógica do ‘já que saí da dieta, agora perdi tudo’. “Esse pensamento de tudo ou nada costuma ser um dos grandes sabotadores. Uma refeição diferente não define o mês inteiro, assim como um exagero pontual não anula todo um processo de cuidado”, ressalta.
Por fim, a Dra. Mariana enfatiza que pequenas oscilações de peso são normais e não devem ser encaradas como fracasso. “Nem todo aumento imediato na balança significa ganho real de gordura. Muitas vezes existe retenção, inflamação transitória, mudança no padrão alimentar e intestinal. O problema é quando a culpa vira desistência”, conclui.
A especialista reafirma que cuidar do peso pode coexistir com a alegria das festas juninas. “A proposta não é viver com medo da comida típica nem transformar um momento cultural em sofrimento. O objetivo é sair dessa lógica de culpa e compensação, que adoece mais do que ajuda. Quando existe estratégia, acolhimento e individualização, é possível passar por esse período de forma mais leve.”
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