Washington – O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ) apresentou nova denúncia por narcotráfico contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sem repetir a acusação de que ele comandaria o chamado Cartel de Los Soles. O documento foi protocolado nesta semana, quase seis anos após a primeira peça, de 2020, que mencionava o cartel 33 vezes e atribuía a Maduro a liderança da suposta organização.
Na versão atual, o termo Cartel de Los Soles aparece apenas duas vezes, de forma secundária, sem qualquer referência ao presidente venezuelano como chefe do grupo. O DoJ agora sustenta que Maduro “participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção” na qual integrantes da elite política e militar venezuelana lucrariam com o tráfico de drogas.
Segundo o texto, esses ganhos ilícitos seriam distribuídos a “funcionários corruptos” que operam em um sistema clientelista conhecido como Cartel de Los Soles — expressão que alude à insígnia em formato de sol utilizada por oficiais de alta patente das Forças Armadas da Venezuela.
Foco em condutas individuais
A mudança chamou atenção porque, no governo Donald Trump, o suposto cartel foi classificado como organização terrorista, argumento usado para justificar a invasão militar à Venezuela em 3 de janeiro deste ano. Especialistas em política de drogas, porém, vêm contestando a existência do grupo e a caracterização da Venezuela como narcoestado.
Gabriela de Luca, consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, avalia que o recuo do DoJ reconhece a dificuldade em comprovar a estrutura de um cartel. “Não emergiram evidências suficientes para caracterizar uma organização criminosa”, afirmou, lembrando que publicações da ONU e o Relatório Anual de Ameaças de Drogas da DEA de 2025 não citam o Cartel de Los Soles.
Para a advogada, o novo enquadramento fortalece o processo ao concentrar-se em crimes individualizados — narcotráfico, corrupção e associação criminosa — em vez de sustentar “um rótulo amplo e frágil”. Ela acrescenta que a mudança dialoga com alertas de especialistas da ONU sobre o uso indiscriminado do termo “cartel”, capaz de ampliar a criminalização do Estado venezuelano.
Acusações mantidas
Apesar da alteração, Washington segue acusando Maduro de colaborar com narcoguerrilhas colombianas, como as Farc e o ELN, e com cartéis mexicanos, entre eles Sinaloa e Zetas, para enviar “toneladas de cocaína” aos Estados Unidos. O líder venezuelano compareceu a audiência de instrução em tribunal federal de Nova York e declarou-se inocente, dizendo ser “prisioneiro de guerra” após ter sido capturado por militares norte-americanos no sábado, 3 de janeiro.
O governo em Caracas afirma que as acusações de narcotráfico servem para justificar a intervenção e o controle das maiores reservas de petróleo do mundo. Na Organização dos Estados Americanos (OEA), o embaixador dos EUA, Leandro Rizzuto, declarou que o petróleo venezuelano “não pode ficar nas mãos de adversários do Hemisfério Ocidental”.
Enquanto isso, o ex-presidente Donald Trump pressiona a administração interina de Delcy Rodríguez, empossada em 6 de janeiro, a conceder acesso aos campos de óleo do país.
Fonte: Agência Brasil
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