Embaixador cubano no Brasil acusa Washington de “política genocida” ao restringir petróleo para a ilha

Robson Alves
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O embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, classificou como “genocídio declarado” as novas sanções dos Estados Unidos que afetam a importação de petróleo pela ilha. A declaração foi feita em entrevista concedida em 12 de fevereiro, na embaixada cubana em Brasília, poucos dias após a edição da Ordem Executiva assinada pelo presidente norte-americano Donald Trump em 29 de janeiro.

Pelo decreto, Havana passou a ser enquadrada como “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington. A medida determina tarifas comerciais aos produtos de qualquer país que forneça ou venda petróleo a Cuba, ampliando o bloqueio econômico imposto há 66 anos pelos EUA, logo após a Revolução de 1959.

Segundo Curbelo, a restrição aproxima-se de uma sentença de extermínio porque compromete toda a cadeia de serviços essenciais. “A economia de um país depende de energia para mover hospitais, produzir alimentos e transportar pessoas”, afirmou o diplomata. Ele explicou que cerca de 80% da eletricidade consumida em Cuba, até 2023, vinha de derivados de petróleo, conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE).

O embaixador lembrou que o bloqueio foi reforçado durante o primeiro mandato de Trump, quando foram acrescentadas 243 medidas restritivas que permaneceram vigentes na gestão de Joe Biden. A nova ordem, na visão do governo cubano, agrava a crise energética iniciada com a interrupção do envio de petróleo venezuelano e com as pressões sobre empresas de transporte e seguros marítimos.

Impacto interno

Diante da escassez de combustível, Cuba adotou cortes drásticos no consumo e priorizou o atendimento de setores considerados vitais. Hospitais, escolas e residências que dependem de equipamentos elétricos para cuidados médicos receberam geradores ou sistemas fotovoltaicos. “Há longos apagões, mas o país reorganizou o trabalho para minimizar o deslocamento das pessoas”, relatou Curbelo.

O governo também investe na diversificação da matriz energética. Em 2025, painéis solares passaram a responder por quase 40% da geração diurna, ampliando a participação da energia fotovoltaica de 3% para 10% da produção total. Apesar do avanço, o embaixador reconheceu que o déficit ainda é “muito agudo”, pois a infraestrutura termelétrica permanece dependente de combustível fóssil e carece de modernização.

Efeitos sobre o turismo e comércio

Companhias aéreas de países como o Canadá suspenderam voos para Cuba devido à indisponibilidade de combustível para o trajeto de retorno. O turismo, principal fonte de divisas externas, sofre impacto direto. “Sem as receitas do turismo, fica ainda mais difícil comprar petróleo”, destacou o representante.

Reação internacional

Curbelo relatou ampla condenação internacional à medida de Trump. O Movimento Não Alinhado, que reúne a maioria dos países do Sul Global, divulgou nota de repúdio, enquanto Rússia, China e México anunciaram ações de apoio. A China enviou 70 mil toneladas de arroz e a Marinha mexicana despachou mais de 900 toneladas de ajuda humanitária.

Para o embaixador, a solidariedade prática é fundamental para enfrentar o bloqueio. “Denunciar é importante, mas agir para mudar a realidade é ainda mais”, afirmou. Ele acrescentou que Havana está disposta a dialogar com Washington em condições de igualdade, mas considera inegociáveis a independência e a soberania da ilha.

Com informações de Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.