Debates sobre IA de sete décadas ressurgem na era dos chatbots

William Kevim
4 Min Leitura

Discussões sobre o impacto da inteligência artificial (IA) — do temor de que máquinas substituam pessoas ao hábito de lhes atribuir características humanas — atravessam pelo menos 70 anos e permanecem atuais em 2026, período marcado pela popularização de sistemas como ChatGPT, Gemini e Claude. O pesquisador Bernardo Gonçalves, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), lembra que, embora o cenário econômico tenha mudado, “as questões são as mesmas”.

Apego emocional às máquinas

Em 1966, o cientista Joseph Weizenbaum, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), desenvolveu o Eliza, considerado o primeiro chatbot de grande repercussão. Rodando em um computador IBM 7094, o programa simulava diálogo a partir de regras pré-definidas. Num experimento, Weizenbaum configurou o sistema para agir como terapeuta: o software transformava afirmações do “paciente” em perguntas e dava a impressão de compreender o interlocutor. A reação foi tão intensa que a secretária do próprio pesquisador solicitou conversar a sós com a máquina. Weizenbaum registrou seu espanto no livro “Computer Power and Human Reason”, lançado em 1976.

“Máquinas podem pensar?”

A reflexão sobre a fronteira entre mente humana e computador começou ainda antes de Eliza. No artigo “Computing Machinery and Intelligence”, publicado em 1950, o matemático britânico Alan Turing questionou se máquinas seriam capazes de pensar. Naquele texto, Turing antecipou objeções teológicas e filosóficas, como a ideia de que pensar é atributo da “alma imortal” ou de que só haveria equivalência ao cérebro humano quando uma máquina compusesse um concerto genuíno.

O emprego de termos que aproximavam cérebro e computador já gerava desconforto. Em 1946, o matemático Douglas Hartree, autoridade em computação no Reino Unido, publicou artigo na revista Nature advertindo contra expressões como “cérebro eletrônico”. Para ele, tais metáforas levavam a superestimar capacidades das máquinas e desviavam o foco de seu real propósito: ampliar, não substituir, o raciocínio humano.

Uma década depois, em 1956, a conferência de Dartmouth College cunhou o termo “inteligência artificial”. A definição buscava justamente separar o conceito de IA da noção de mente humana, descrevendo-o como o comportamento de máquinas que, se fosse observado em pessoas, seria considerado inteligente.

Poder e mercado

Segundo Gonçalves, a controvérsia atual envolve “tecnologias que deslocam poder”. Nos anos 1940, “computador” designava profissionais — majoritariamente mulheres — encarregados de cálculos complexos, função eliminada com a automação. Hoje, corporações com orçamentos bilionários ocupam o centro da pesquisa em IA, atraindo investimentos públicos e privados.

992055

Imagem: Getty Images via BBC

Promessas e frustrações

O ciclo de expectativas e decepções é outra constante histórica. No início dos anos 1970, o Reino Unido enfrentou um “inverno da IA” após o matemático James Lighthill divulgar relatório que classificava o campo como “especulação sem fundamento”. Décadas depois, novas promessas ganham força com sistemas de linguagem lançados em 2022, como o ChatGPT. Para Gonçalves, o debate polarizado costuma oscilar entre previsões de superinteligências dominantes e críticas que reduzem os modelos a “papagaios estocásticos”, enquanto os sistemas, de fato, continuam evoluindo.

Apesar do ceticismo, o pesquisador destaca que a automação de atividades intelectuais — etapa pouco afetada nas revoluções industriais anteriores — mantém a IA no centro da transformação econômica e social. “São tecnologias com repercussão social muito forte e clara”, afirma.

Com informações de G1

Compartilhe essa Notícia
William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.