Cubanos relataram agravamento da crise em Havana após novas sanções energéticas dos EUA

Robson Alves
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Moradores de Havana afirmam que Cuba enfrenta o momento mais crítico das últimas décadas após o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos no fim de janeiro de 2026. A medida, adotada pelo governo Donald Trump, ameaçou com tarifas os países que forneçam petróleo à ilha, considerada por Washington “ameaça incomum e extraordinária” à sua segurança.

Entre as principais consequências estão apagões mais longos e imprevisíveis, elevação do custo de produtos essenciais, redução do transporte público e queda na entrega da cesta básica subsidiada. O cenário, segundo entrevistados, supera em gravidade o chamado “período especial” da década de 1990.

Apagões sem previsão e impacto em serviços

A arquiteta Ivón B. Rivas Martínez, 40 anos, mãe de um menino de 9, conta que as interrupções no fornecimento de energia, antes planejadas, tornaram-se incontroláveis. “Chegamos a ficar 12 horas consecutivas sem luz”, relata. Ela acrescenta que, no interior, parentes enfrentam praticamente um dia inteiro de falta de eletricidade, o que obriga a comprar apenas o alimento consumido no mesmo dia para evitar desperdício.

Sem energia, bombas de água, caixas eletrônicos, cartórios, telefonia e internet param de funcionar. “Qualquer necessidade do cotidiano depende de ter luz, e isso já não é garantido”, resume Ivón.

Preços sobem em ritmo acelerado

Após as novas restrições, produtos básicos como arroz, óleo e carne de frango ficaram “muito mais caros”, segundo a arquiteta. Com cerca de 80% da eletricidade gerada por termelétricas movidas a combustível, a limitação para comprar petróleo no mercado internacional — agravada pelo bloqueio naval norte-americano à Venezuela desde 2025 — pressiona ainda mais os custos.

“Pior que o período especial”

O economista aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, 71 anos, considera a situação atual a mais severa que o país já viveu, inclusive em comparação com a crise de 30 anos atrás, quando o colapso do bloco soviético interrompeu parcerias comerciais. “Material e espiritualmente, é mais cruel”, avalia. Ele observa que o Estado perdeu capacidade de fornecer integralmente a cesta de alimentos que, historicamente, alcançava toda a população.

Transporte limitado e custo elevado

Com menos combustível, linhas de ônibus na capital foram reduzidas a apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde, e algumas nem isso mantêm, diz Ivón. Já o transporte privado encareceu a ponto de se tornar inviável para muitos cubanos. Para deslocamentos entre províncias, Feliz Jorge calcula que a oferta caiu pela metade: trens, antes a cada quatro dias, agora circulam a cada oito; ônibus nacionais oferecem apenas duas viagens semanais para as capitais provinciais.

Saúde e medicamentos em risco

A crise energética atinge também o sistema de saúde, já pressionado por sanções que limitam a exportação de serviços médicos cubanos — uma das principais fontes de receita do país. Consultas foram canceladas porque médicos têm dificuldade para se deslocar, e a falta de remédios afeta, sobretudo, pacientes que dependem de medicamentos contínuos, aponta Ivón. Apesar disso, Feliz Jorge afirma que as pessoas continuam procurando hospitais e recorrem a redes informais ou a familiares no exterior para conseguir remédios.

Educação e cultura resistem

Mesmo diante das dificuldades, escolas permanecem abertas. Crianças e adolescentes costumam estudar perto de casa e conseguem caminhar até as salas de aula. O filho de Ivón mantém aulas de música gratuitas oferecidas pelo Estado, opção que ela considera fundamental para a socialização das crianças.

Expectativa em meio à pressão externa

Para Ivón, o objetivo norte-americano de provocar uma mudança de regime não deve ser alcançado. “A população está concentrada em garantir comida; quem está insatisfeito prefere emigrar a protestar”, opina. Feliz Jorge acrescenta que, embora o bloqueio seja, em sua visão, “desumano e cruel”, Cuba não está isolada e “continuará avançando”.

O embargo econômico dos EUA à ilha já dura 66 anos e foi reforçado por centenas de novas sanções a partir de 2017. Durante a pandemia de covid-19, o turismo, principal atividade econômica cubana, sofreu forte retração, agravando uma crise que agora se intensifica com as restrições ao abastecimento de combustível.

Com informações de Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.