Mais de 2,1 milhões de eleitores vivem em favelas no estado do Rio. Dados do IBGE apontam déficits de água, esgoto e urbanização nesses territórios.
No estado do Rio de Janeiro, 12,8 milhões de eleitores estão aptos a ir às urnas em outubro. Desses, 2,1 milhões vivem em uma das 1.724 favelas fluminenses, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que essas áreas, embora antigas, ainda enfrentam maiores dificuldades de urbanização e de acesso a serviços públicos, evidenciando desigualdade na presença do Estado nesses territórios.
Na cidade do Rio, 1,3 milhão de pessoas moram em uma das 813 favelas. Nesses locais há, em geral, menos casas ligadas à rede de esgoto e água e menor cobertura de coleta de lixo, embora as comunidades não sejam homogêneas, como explica a professora de serviço social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eblin Farage, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE).
Com a proximidade da troca de governantes, moradores de favelas cariocas apontam demandas prioritárias para as comunidades: melhorias na mobilidade, na educação, em equipamentos culturais e de lazer, na saúde, na participação social e em políticas de enfrentamento à violência. Essas prioridades são colocadas por moradores que dizem também se preocupar com operações policiais e a ausência de ações integradas nas áreas sociais.
Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, moradora do Complexo do Alemão, está envolvida em iniciativas comunitárias e votará pela primeira vez em outubro. Para escolher seu voto, ela considera perfis ligados a pautas negras, direitos humanos e à população, e valoriza candidatos e candidatas dispostos a dialogar com as comunidades.
“Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor, então, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”
Letícia também destaca a mobilidade como prioridade: o acesso à cidade é um desafio para quem mora em áreas periféricas e a falta de linhas diretas prejudica o direito ao lazer e o acesso a empregos.
“Hoje você não tem um ônibus que saia do Alemão ou de qualquer favela [da zona norte] para zona sul. Eu sou jovem, ir à praia é uma demanda real, de direito ao lazer”
Sobre programas de inserção no mercado de trabalho, a jovem critica que o custo das viagens e da alimentação não é coberto pelas vagas oferecidas.
“Os valores [de repasse] são baixos, hoje, R$ 20 não pagam nem uma quentinha”
Da Rocinha, com cerca de 72 mil habitantes, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, aponta a ausência de oportunidades profissionais como prioridade, além do fim da escala 6×1, que dificulta conciliar trabalho, família e estudo em contextos de longos deslocamentos.
“É muito difícil conciliar trabalho, família e estudo com essa rotina, principalmente, por causa dos grandes deslocamentos, caso das pessoas que moram em favelas”
Outro ponto recorrente é a educação técnica e profissionalizante. João*, 26 anos, que vive de bicos e é pai de duas meninas, cobra maior oferta e continuidade dos cursos, reclamando que muitos projetos se encerram antes de formar as turmas.
“Aqui, o curso começa, a gente até inicia, mas acaba antes de a gente concluir”
“Eu ainda queria estudar, mesmo sendo difícil [trabalhar e estudar]. Falar um português melhor e ter uma vida melhor”
A estudiosa e educadora popular Sara Sant’anna, de 24 anos, menciona a carência de centros culturais e polos de educação superior em áreas como Campo Grande, na zona oeste, cobrando políticas que ampliem o acesso local ao ensino superior.
“Campo Grande é um dos maiores bairros do Brasil e a oferta de cursos superiores públicos aqui é limitada. A faculdade mais perto é longe, em Seropédica, a uma hora”
Além de educação, moradores destacam a necessidade de ações específicas de enfrentamento ao racismo e melhorias na saúde, temas que seguem entre as prioridades para as eleições de outubro nas comunidades do Rio.
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