Países do sul global ficam de fora das grandes pesquisas clínicas. Novo estudo internacional aposta em ferramentas portáteis e acessíveis para mudar esse cenário, com participação do Brasil.
A concentração de investimentos em pesquisas e publicações científicas é uma realidade preocupante em todo o mundo. Um ranking da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, publicado em 2020, revelou que nove dos dez países que mais se destacam em pesquisas clínicas pertencem ao norte global, com a única exceção sendo a China.
Essa concentração de inovação científica traz diversos problemas, como a desvalorização de pesquisadores e a dificuldade na captação de recursos para novas pesquisas. No entanto, um estudo internacional recente mostrou que ferramentas portáteis e de baixo custo podem ser a chave para viabilizar pesquisas científicas e diagnósticos em saúde, especialmente em países de baixa e média renda.
O estudo, que contou com a colaboração de cientistas do Canadá, Estados Unidos, Chile, Colômbia, Índia e Brasil, foi publicado em maio na revista científica Science Advances. Ele apresenta soluções inovadoras para a biofabricação de proteínas, enzimas, reagentes diagnósticos e outros insumos essenciais para a área da saúde.
“Um dos principais desafios enfrentados por pesquisadores brasileiros e de diversos países em desenvolvimento é a dependência de reagentes importados, que frequentemente sofrem atrasos de entrega, altos custos e dificuldades logísticas”, afirma Lindomar Pena, cientista do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz Pernambuco.
A Fiocruz teve um papel fundamental na coordenação brasileira deste estudo. Segundo Lindomar Pena, a participação da instituição foi crucial para validar a aplicabilidade da tecnologia em condições reais de uso e para contribuir com o desenvolvimento de soluções mais acessíveis, baseadas na produção local de insumos.
O projeto permite o uso de sistemas biológicos acelulares capazes de produzir proteínas a partir de componentes moleculares que são preparados e liofilizados, ou seja, desidratados a frio. Esses compostos têm a vantagem de serem facilmente armazenados e transportados, sem a necessidade de refrigeração. Além disso, equipamentos portáteis produzidos por impressão 3D se destacaram como alternativas mais acessíveis para os pesquisadores.
Testes realizados em diversos países mostraram que os componentes desenvolvidos apresentaram desempenho comparável àqueles que são comercialmente utilizados atualmente. Isso abre novas possibilidades para soluções que podem ser aplicadas em diferentes contextos de produção científica ao redor do mundo.
“Demonstrar que é possível produzir localmente insumos estratégicos, com qualidade e custo reduzido, representa um passo importante para fortalecer a capacidade de resposta a emergências em saúde e reduzir desigualdades no acesso à biotecnologia”, conclui Pena.
O estudo contou ainda com a contribuição de mais de dez pesquisadores brasileiros, reforçando a importância da colaboração internacional na busca por soluções inovadoras e acessíveis para a saúde global.
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