Nordeste avança no orgânico enquanto Brasil registra queda histórica

Rafael Ramos
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Com o país enfrentando redução inédita de produtores orgânicos em 2026, o Nordeste nada contra a maré e lidera o crescimento do setor. Arranjos locais e certificações coletivas impulsionam a expansão regional.

O Nordeste brasileiro está se consolidando como um importante motor de crescimento da agricultura orgânica no país. Em um cenário onde o número total de produtores registrados apresenta uma queda inédita em 2026, os estados da região demonstram uma expansão significativa, impulsionados por arranjos produtivos locais e o avanço dos sistemas coletivos de garantia.

De acordo com dados do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, analisados pelo Observatório do Brasil Orgânico ligado ao Instituto Brasil Orgânico (IBO), o Brasil encerrou o ano com 23.728 unidades de produção, o que representa uma redução em comparação às 25.178 registradas em 2025.

A queda de 5,7% (equivalente a 1.450 produtores a menos) marca a primeira retração desde o início da série histórica. Contudo, segundo Rogério Dias, presidente do IBO e engenheiro agrônomo, esse indicativo não reflete um enfraquecimento do setor.

“Os números mostram que não estamos diante de uma crise na agricultura orgânica. O que ocorreu foi um movimento concentrado em cadeias extrativistas organizadas em certificações coletivas. Quando uma empresa deixa de manter a certificação de um grupo, centenas de produtores saem simultaneamente do cadastro”, explica Dias, que também é conselheiro do IBO.

Embora a situação nacional tenha apresentado um recuo, Dias alerta para a diminuição de investimentos e políticas públicas voltadas para o segmento. Ele destaca que os recursos destinados ao fomento da atividade neste ano somam apenas R$ 900 mil, um valor substancialmente inferior aos R$ 7,5 milhões registrados em 2016.

No entanto, enquanto o Norte do país enfrenta dificuldades, o Nordeste avança na estruturação orgânica. A Paraíba se destaca ao formalizar 246 novas unidades produtivas. Na sequência, a Bahia registrou um aumento de 209 produtores, seguida pelo Rio Grande do Norte com 169 e Pernambuco com 137 novos produtores.

Na Paraíba e no Rio Grande do Norte, o cultivo de algodão orgânico tem sido o principal motor dessa expansão. Por sua vez, a Bahia, que conta com 1.895 produtores, se beneficia da diversificação produtiva e da força da Rede Povos da Mata, referência nacional em certificação participativa.

Apesar da mudança no eixo de crescimento, a região Sul ainda concentra o maior volume absoluto de unidades produtoras. O Paraná permanece no topo do ranking nacional com 4.292 registros, seguido pelo Rio Grande do Sul com 3.158, Bahia com 1.895, São Paulo com 1.632 e Pará com 1.512.

O balanço de 2026 também revelou uma mudança significativa no perfil da regulamentação. Pela primeira vez no Brasil, os Sistemas Participativos de Garantia (SPG), que se baseiam na responsabilidade e no controle social entre os próprios agricultores, superaram o modelo tradicional de certificação por auditoria, realizada por empresas privadas.

Os SPGs alcançaram 9.788 unidades produtivas, em comparação às 8.855 do modelo tradicional. Segundo a análise do Observatório, essa mudança demonstra o fortalecimento de modelos coletivos e territoriais de organização dos produtores, um avanço notável no Nordeste.

“O momento exige uma leitura mais aprofundada dos dados. Existem sinais claros de reorganização territorial da produção orgânica brasileira, com novas regiões ganhando protagonismo e novos modelos de certificação mostrando capacidade de expansão”, conclui Rogério Dias.

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Rafael Ramos é jornalista e gestor de comunicação com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.