A saúde mental masculina ainda é um tabu que mata. Profissionais alertam para um padrão perigoso: homens que sofrem sem pedir ajuda. Entenda o que está por trás desse silêncio.
Junho é um mês marcado por diversas campanhas de conscientização, mas poucos sabem que também é um período dedicado à reflexão sobre a saúde mental dos homens. Este tema se torna cada vez mais urgente. Como jornalista e psicóloga, tenho observado há anos um fenômeno recorrente: homens adoecendo em silêncio.
Minha trajetória profissional sempre esteve cercada por homens. Ao longo de mais de duas décadas, acompanhei profissionais da segurança pública, trabalhadores de diferentes setores e convivi em círculos sociais predominantemente masculinos. Essa experiência me fez perceber uma constante: muitos homens falam sobre futebol, trabalho, política, carros e dinheiro, mas poucos se abrem sobre medo, tristeza, angústia, solidão ou sofrimento emocional.
É como se houvesse uma regra não escrita que os acompanha desde a infância: ‘homem não chora’. Essa frase, aparentemente inofensiva, traz consequências devastadoras. Quando um menino aprende que não pode chorar, ele não deixa de sentir; apenas aprende a esconder suas emoções. Ele aprende a engolir o medo, sufocar a tristeza e mascarar a vulnerabilidade.
O problema é que emoções ignoradas não desaparecem. Elas encontram outras formas de se manifestar. Em muitos casos, a tristeza se disfarça de agressividade, a ansiedade se transforma em irritação constante, e a frustração pode culminar em violência. O sofrimento emocional é frequentemente anestesiado pelo álcool, pelo excesso de trabalho, pelo isolamento ou por comportamentos de risco.
A sociedade ainda associa masculinidade à força, controle e resistência. O homem idealizado é aquele que suporta tudo, resolve tudo e não demonstra fragilidade. No entanto, ninguém é capaz de suportar tudo.
Enquanto as mulheres foram socializadas para falar sobre sentimentos, buscar apoio e construir redes de acolhimento, muitos homens cresceram ouvindo que demonstrar emoções é sinal de fraqueza. O resultado é uma geração inteira que não aprendeu a nomear o que sente.
Não saber falar sobre sofrimento não significa não sofrer. Dados nacionais e internacionais indicam que os homens buscam menos os serviços de saúde, são menos propensos a se submeter a acompanhamento psicológico e costumam procurar ajuda apenas quando o sofrimento já é extremo. Por isso, os índices de suicídio são significativamente maiores entre homens. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de oito em cada dez mortes por suicídio no Brasil ocorrem entre pessoas do sexo masculino.
Esse dado deve nos causar indignação coletiva.
Por trás de cada estatística, existe uma história interrompida: um pai, um filho, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho que passou anos ouvindo que precisava ser forte o tempo todo. Mas o que significa ser forte?
Talvez a verdadeira força esteja na capacidade de reconhecer limites. Admitir que algo não vai bem e pedir ajuda antes que o sofrimento se transforme em tragédia é um ato de coragem.
Como psicóloga, costumo afirmar que a vulnerabilidade não é o oposto da força; é uma das formas mais corajosas de existir. É preciso coragem para dizer “eu não estou bem” e para desmontar uma armadura construída ao longo da vida.
O que me preocupa é que ainda tratamos a saúde mental masculina como uma questão individual, quando na verdade é um problema social e cultural. Não estamos falando apenas de homens que sofrem, mas de um modelo de masculinidade que, muitas vezes, impede esses homens de reconhecerem esse sofrimento.
Quando um homem acredita que precisa resolver tudo sozinho, ele não carrega apenas suas dores, mas também o peso de expectativas impossíveis. E esse peso adoece. Ele adoece relacionamentos, famílias, ambientes de trabalho e comunidades inteiras.
Por isso, falar sobre saúde mental masculina não é um privilégio, mas uma necessidade de saúde pública. Precisamos ensinar aos meninos que coragem não é a ausência de medo, que sensibilidade não diminui ninguém, que chorar não é fraqueza e que pedir ajuda não é fracasso.
É fundamental criar espaços onde homens possam existir para além dos papéis impostos, onde possam ser fortes e vulneráveis, seguros e inseguros, corajosos e assustados. Homens choram, sentem, adoecem e, por isso, também precisam de cuidados.
Neste mês de conscientização sobre a saúde mental masculina, o maior desafio talvez seja romper o silêncio. O silêncio pode parecer resistência, mas muitas vezes é apenas sofrimento sem voz. E todo sofrimento que não encontra palavras acaba se manifestando de outras formas, nem sempre da melhor maneira.
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