Reconhecimento facial obriga entrada em grandes estádios e eleva público e segurança

Rafael Ramos
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TRANSMISSÃO: Record

Biometria facial passa a ser regra em arenas e influencia presença de torcedores

Desde a implementação obrigatória da biometria facial em estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas, o acesso deixou de depender da apresentação de ingressos impressos. O cadastro do rosto ocorre no momento da compra da entrada, e a liberação nas catracas passa a ser feita pelo reconhecimento facial.

O uso da tecnologia está previsto no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, sancionada em 14 de junho de 2023, que estabeleceu prazo de dois anos para que os locais adotassem o sistema. Empresas privadas, como a Bepass, desenvolvem e operam as soluções usadas nas arenas. Segundo Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, a personalização dos ingressos evita empréstimos e trocas, além de reduzir fraudes ao impedir a cópia da face do comprador.

O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio no mundo a aplicar a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. A Bepass informou que a velocidade de entrada no local aumentou quase três vezes após a implantação e que o próprio Palmeiras registrou crescimento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores.

Torcedores relatam praticidade. O motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino disse que realiza o cadastro facial uma única vez ao comprar ingressos on-line e que a medida tornou a entrada mais rápida para ele e as filhas, em relato feito antes de entrar na Arena Barueri para o clássico Palmeiras x Corinthians pelo Campeonato Brasileiro Feminino.

Dados de público também apontam alta: a média de público do Brasileirão Masculino no ano passado foi de 25.531 torcedores por partida; considerando as 269 partidas realizadas após a obrigatoriedade da biometria facial, a média subiu para 26.513 pessoas, cerca de 4% a mais.

Mesmo clubes com capacidade inferior ao limite da lei adotaram o reconhecimento facial. A Vila Belmiro, do Santos, que tem cerca de 15 mil lugares, começou a operar a entrada por biometria em 2024. O clube estima economia de R$ 100 mil por mês — R$ 1,2 milhão ao ano — por não precisar mais confeccionar carteirinhas, e o presidente Marcelo Teixeira afirmou que o cadastramento em massa trouxe mais conforto e ajudou a combater ingressos falsos e cambistas.

A integração dos sistemas de biometria com o Banco Nacional de Mandados de Prisão cria também uma frente de segurança: os dados são cruzados e, se houver pendência judicial, a polícia é acionada. Em 15 de março, no clássico entre Santos e Corinthians na Vila Belmiro, três homens foram detidos após o cruzamento de informações — um deles por roubo e dois por falta de pagamento de pensão alimentícia.

Em âmbito nacional, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública firmaram, em 2023, o projeto “Estádio Seguro”. Em São Paulo, uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública integra os equipamentos a um sistema de monitoramento estadual; no programa “Muralha Paulista” mais de 280 foragidos foram identificados e detidos ao tentar entrar em arenas.

Críticas surgem quanto ao uso e destino dos dados coletados. O relatório “Esporte, Dados e Direitos”, desenvolvido pelo projeto “O Panóptico” do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), aponta riscos à privacidade, vulnerabilidade de crianças e adolescentes e o potencial racismo algorítmico, além de questionar a vinculação obrigatória da compra do ingresso à coleta biométrica à luz da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O documento também destaca casos de identificação equivocada: em 2024, um torcedor negro do Confiança foi retirado da Arena Batistão, em Aracaju, após o cruzamento do reconhecimento facial apontá‑lo erroneamente como foragido. O relatório cita estudo de 2018 de Joy Buolamwini e Timnit Gebru, que mostrou erros de identificação variáveis por raça e gênero — com taxa de erro de 34,7% para mulheres negras e 0,8% para homens brancos.

Melchert afirma que o armazenamento e o tráfego dos dados biométricos são vetorizados, sem trânsito de fotografias, e reconhece que nenhum sistema é isento de falhas, sendo o problema mais comum o não reconhecimento da face. Segundo ele, o ajuste de acurácia reduz a probabilidade de falso positivo para cerca de um em um milhão.

O diretor da Bepass considera provável a expansão do uso do reconhecimento facial para shows e outros eventos, citando ganhos de segurança, redução de cambismo, maior fluidez no acesso e possibilidade de maiores receitas para produtores.

Com informações de Agência Brasil

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Rafael Ramos é jornalista e gestor de comunicação com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.