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Desde março de 2025 a rotina de Vera Lúcia Silva de Souza, de 74 anos, inclui o cuidado diário com plantas em casa e o deslocamento a pé até a horta comunitária localizada na parte baixa do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro. O espaço serve para complementar sua renda e integrar práticas tradicionais de cultivo mantidas por moradores.
Vera faz parte do Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, grupo que desde 2019 se organiza para catalogar espécies e saberes locais e preservar plantas conhecidas na comunidade, mas pouco presentes fora dela. A horta do Salgueiro é uma das 84 mantidas por comunidades com apoio da Prefeitura do Rio, por meio do programa Hortas Cariocas, criado há cerca de 20 anos. Segundo a Secretaria de Ambiente e Clima, a produção das hortas do programa somou 74 toneladas em 2025; a colheita no Salgueiro foi de 700 kg.
Memória
Vera relata que prefere trabalhar na terra pela manhã, quando as temperaturas são mais amenas e a água não prejudica as plantas. As lembranças de infância — quando remédios e chás eram preparados em casa por sua mãe e avó — foram motivação para retomar o cultivo. Ela recorda que aprendeu com as antecessoras a plantar e preparar receitas caseiras com ervas.
Moradora do alto do morro, em área próxima às franjas do Parque Nacional da Tijuca, Vera vive em um quintal cercado por árvores, cenário pouco comum em favelas onde a temperatura costuma ficar acima da média da cidade. Ela mantém diversas mudas no terreno e costuma doar pequenas plantas aos vizinhos quando pedem.
Diversidade de plantas
Em depoimento em vídeo, o integrante do coletivo Marcelo Rocha apontou a perda de variedade alimentar presente nas prateleiras dos supermercados, contraposta à diversidade que ainda existe entre plantas cultivadas por gerações. O coletivo cultiva ervas como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão e taioba, entre outras espécies tradicionais.
Sem identificação externa, a horta é conhecida principalmente pelos moradores locais. Parte da produção é destinada como doação à Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias. Walace Gonçalves de Oliveira, o Tio Dadá, de 66 anos, afirma que profissionais da saúde indicam às vezes ervas e alimentos produzidos na horta a pacientes do posto de saúde da comunidade.
Da remoção ao cultivo
O terreno utilizado pelo coletivo foi liberado após uma desapropriação motivada pelo risco de deslizamento em encostas. A área, antes tomada por entulho, foi recuperada pela própria comunidade e transformada em canteiros produtivos, onde cultivam desde hortaliças como alface, chicória e cenoura até fruteiras, como limoeiro e uma laranja de polpa vermelha conhecida como laranja sanguínea.
Alimento e cidadania
A Prefeitura do Rio afirma que as hortas urbanas têm contribuído para reduzir ocupações irregulares de terrenos ociosos e aumentar a inclusão social, além de oferecer alimentos livres de agrotóxicos e transgênicos. A secretária de Ambiente e Clima, Tainá de Paula, informou que o suporte técnico da pasta é contínuo e que há distribuição permanente de sementes para retirada pelas comunidades.
O trabalho no Salgueiro reúne preservação de saberes, produção alimentar e iniciativas comunitárias voltadas à saúde e à cidadania local.
Com informações de Agência Brasil
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