Transmissão: Record
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou atrás pela segunda vez em menos de uma semana na ameaça de atingir a indústria energética do Irã, medida que evidenciou limites de Washington para ampliar o conflito. A decisão do governo ocorre em meio a impactos econômicos provocados pelo fechamento do Estreito de Ormuz e por ataques à infraestrutura de energia das monarquias petrolíferas do Golfo Pérsico.
O recuo de Trump coincidirá com o preço do barril de petróleo na casa dos US$ 110, queda das ações em Wall Street aos menores níveis dos últimos seis meses e recuo nos mercados de títulos da zona do euro e do Tesouro americano.
Pedro Paulo Zaluth Bastos, professor associado de economia da Unicamp, avalia que as ameaças presidenciais têm caráter retórico para testar reações, mas perdem efeito quando confrontadas com o risco de retaliações na região. Segundo ele, se os EUA destruíssem a capacidade petrolífera do Irã haveria resposta no Golfo Pérsico e o barril poderia subir para patamares entre US$ 150 e US$ 200, o que prejudicaria significativamente a popularidade de Trump, inclusive entre eleitores independentes e parte dos republicanos.
Bastos acrescenta que maiores ataques à infraestrutura energética implicariam em prejuízos econômicos mais duradouros, porque destruir instalações exige tempo e custos bem superiores aos de simplesmente religar sistemas paralisados. Isso reduziria ainda mais o volume de petróleo disponível no mercado internacional, amplificando os efeitos negativos sobre a economia global e a americana.
Efeitos e riscos
O economista Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, alerta para consequências “catastróficas” caso a guerra se prolongue ou se intensifique a destruição de infraestrutura na região. Alguns analistas comparam cenários iniciais a uma combinação dos impactos da pandemia de Covid-19 com os primeiros meses da guerra na Ucrânia; outros afirmam que, se o conflito se estender por meses, os efeitos podem chegar a ser comparáveis à crise financeira de 2008.
Fernandes observa ainda que a escalada pode incluir ações por terra contra o Irã, o que provocaria respostas iranianas mais severas e aprofundaria a crise econômica. Ele cita o risco adicional de fechamento do estreito Bab al‑Mandeb por aliados do Irã, o que levaria a um colapso generalizado do mercado global de energia.
O analista destaca a dependência do gás do Oriente Médio para a produção de fertilizantes e insumos para semicondutores e lembra que cerca de 60% a 70% da produção global de chips vem de Taiwan, cuja principal fabricante, a TSMC, não dispõe de estoques prolongados de gases como o hélio. Além disso, avaliou-se que os estoques do sistema antimísseis THAAD dos EUA já teriam sido parcialmente consumidos na chamada Guerra dos 12 dias contra o Irã, em junho de 2025, reduzindo a capacidade de manter uma campanha prolongada.
Segundo Fernandes, empresas petrolíferas americanas vendem com base no preço global, o que faria os EUA sofrerem aumentos nos combustíveis internamente, cenário negativo para Trump em ano de eleições legislativas em novembro, quando o presidente corre o risco de perder a estreita maioria que tem no Congresso. Para o professor da Unicamp, o Irã identificou um ponto de estrangulamento econômico mundial e tende a manter pressão até obter concessões maiores, já viabilizadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
O conjunto desses fatores explica o novo recuo norte-americano diante da escalada militar e dos efeitos econômicos derivados da atual disputa no Golfo Pérsico.
Com informações de Agência Brasil




