Vídeos de demissão ganham milhões de visualizações e levantam alerta sobre riscos à carreira

William Kevim
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Gravar e publicar o próprio desligamento do trabalho tornou-se uma tendência nas redes sociais. No TikTok, a busca por “vlog de demissão” reúne publicações que ultrapassam milhões de visualizações, transformando um momento delicado em conteúdo de alto alcance. Especialistas em recursos humanos e direito trabalhista, porém, recomendam cautela com a exposição.

Casos que impulsionaram a tendência

A administradora Victoria Macedo, de 28 anos, foi desligada da Natura durante uma reestruturação. Para explicar aos seguidores por que não mostraria mais a rotina na companhia, registrou todo o dia da demissão em vídeo. O material, publicado no TikTok, superou 1,5 milhão de visualizações e aumentou a procura por seu perfil, rendendo convites de entrevistas antes mesmo de atualizar currículo e portfólio.

Victoria iniciou a trajetória na empresa como estagiária em 2024 e foi efetivada oito meses depois, atuando no planejamento comercial até completar quase dois anos de casa. Paralelamente, participava do programa de influenciadores internos da marca, o que a habituou às câmeras. Mesmo assim, tomou cuidados: não mostrou colegas nem informações confidenciais. “Se pretendo seguir no mercado, não faz sentido expor a empresa”, diz.

Outro exemplo é o da designer mineira Thaís Borges, 26 anos, conhecida on-line como “Thaís do Millenium”. Após três anos e meio em uma multinacional, enfrentou sua primeira demissão durante um corte em massa. O vídeo que registrou o momento — incluindo a reação do marido — já soma mais de meio milhão de visualizações. Thaís, que produz conteúdo sobre carreira há quatro anos, percebeu o peso emocional da palavra “demissão” e passou a usá-la em títulos, falas e hashtags. Desde então, recebeu contatos de recrutadores sem enviar candidaturas formais e mantém aberta a possibilidade de voltar ao regime CLT ou investir na criação de conteúdo.

O que explica o fenômeno

Para a pesquisadora Issaaf Karhawi, da Universidade de São Paulo (USP), a prática reflete o “borrão” entre vida privada e esfera pública nas plataformas. “Vivemos uma convocação permanente à visibilidade”, afirma. Segundo ela, o TikTok, ao adaptar o formato dos vlogs — já populares no YouTube — a vídeos curtos, consolidou um espaço para narrativas mais autênticas que contrapõem a estética de sucesso comum em redes como LinkedIn e Instagram.

Impacto na reputação profissional

Raquel Nunes, líder de RH na HUG, observa que recrutadores analisam não apenas o fato de alguém ter sido dispensado, mas a forma como a situação é comunicada. Postagens que revelam conflitos ou críticas diretas levantam alerta sobre confidencialidade e inteligência emocional. Conteúdos focados em aprendizados, por outro lado, podem valorizar a imagem de resiliência.

Riscos trabalhistas e legais

A advogada Isabel Cristina, do escritório Ferraz dos Passos, lembra que a liberdade de expressão não é absoluta quando envolve o empregador. Gravações dentro da empresa, exposição de colegas ou processos internos podem violar cláusulas de confidencialidade e gerar pedidos de indenização por danos à reputação da companhia.

Se a publicação ocorrer durante o aviso prévio, a situação pode se agravar. De acordo com o advogado trabalhista Cid de Camargo Júnior, a empresa tem o direito de converter a dispensa comum em demissão por justa causa caso comprove que o conteúdo foi ofensivo ou violou regras de conduta enquanto o contrato ainda estava vigente.

Cautela antes de apertar “publicar”

Especialistas recomendam que o profissional reflita sobre o impacto da postagem em futuros processos seletivos. Evitar nomes, críticas diretas e detalhes estratégicos da empresa é considerado fundamental para não comprometer a empregabilidade. “Conte sua história, mas lembre-se de que cada publicação constrói sua marca pessoal”, resume Raquel Nunes.

Enquanto vídeos de demissão seguem conquistando audiência nas redes, trabalhadores são aconselhados a ponderar entre a busca por engajamento e a preservação de oportunidades na carreira.

Com informações de G1

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William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.