Quatro em cada dez mortes por câncer registradas no Brasil poderiam ser prevenidas ou evitadas com diagnóstico precoce e tratamento adequado. A conclusão é de um levantamento internacional divulgado na edição de março da revista científica The Lancet, intitulado “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo”.
Coordenado por 12 especialistas – oito deles ligados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) com sede em Lyon, França – o estudo analisou dados de 35 tipos de tumor em 185 países.
Impacto no Brasil
Para o país, os autores estimam que, dos 253,2 mil diagnósticos de câncer feitos em 2022, cerca de 109,4 mil devem resultar em óbito nos cinco anos seguintes, mas poderiam ser evitados. Desse universo, 65,2 mil mortes seriam preveníveis por medidas de redução de fatores de risco, enquanto outras 44,2 mil deixariam de ocorrer caso houvesse identificação precoce da doença e acesso oportuno a terapias adequadas.
Cenário global
No panorama mundial, 47,6% dos 9,4 milhões de óbitos por câncer em 2022 – o equivalente a quase 4,5 milhões de vidas – também poderiam ter sido poupados. Entre essas mortes evitáveis, 33,2% são consideradas preveníveis e 14,4% tratáveis mediante diagnóstico e atendimento em tempo hábil.
Principais fatores de risco
Os pesquisadores apontam cinco causas principais que ampliam a probabilidade de desenvolvimento de tumores:
- tabagismo;
- consumo de bebidas alcoólicas;
- excesso de peso corporal;
- exposição excessiva à radiação ultravioleta;
- infecções como HPV, hepatites virais e a bactéria Helicobacter pylori.
Desigualdades regionais
As disparidades entre países e regiões são expressivas. No norte da Europa, apenas 30% dos óbitos são considerados evitáveis, com Suécia (28,1%), Noruega (29,9%) e Finlândia (32%) nos menores percentuais. Na outra ponta, Serra Leoa (72,8%), Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%) registram as maiores proporções, todas na África.
Por blocos geográficos, Austrália e Nova Zelândia apresentam 35,5% de mortes evitáveis; América do Norte, 38,2%; e Norte da Europa, 37,4%. Já África Oriental e África Ocidental atingem 62%, seguidas pela África Central, com 60,7%. Na América do Sul o índice é de 43,8%, muito próximo ao brasileiro.
Influência do IDH
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também interfere nos resultados. Países de baixo IDH concentram 60,8% de óbitos evitáveis, enquanto nações de IDH muito alto registram 40,5%. O Brasil, classificado como país de IDH alto, encaixa-se no grupo que apresenta 57,7%.
Tipos de tumor mais relacionados
O estudo calcula que 59,1% das mortes evitáveis estão ligadas a cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero. Entre os casos preveníveis, o de pulmão lidera com 1,1 milhão de óbitos (34,6% do total mundial). Já o câncer de mama figura como principal causa de mortes tratáveis, com 200 mil registros, representando 14,8% do total.
Caminhos para redução
Entre as recomendações dos autores estão campanhas de combate ao tabagismo e ao consumo de álcool, elevação de impostos sobre esses produtos, regulamentação de publicidade e rotulagem de alimentos não saudáveis, além de ações contra o excesso de peso. Eles destacam ainda a importância da vacinação contra HPV e de metas para o diagnóstico do câncer de mama, de modo que 60% dos casos sejam detectados nos estágios iniciais e mais de 80% das pacientes recebam confirmação em até 60 dias após a primeira consulta.
No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) realizam periodicamente campanhas de prevenção e de diagnóstico precoce, reforçando a necessidade de ampliar o acesso a exames e tratamentos em todo o território nacional.
Com informações de Agência Brasil
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