Um vídeo divulgado no início de fevereiro de 2026 no Instagram, com mais de 230 mil curtidas, alega que o uso diário de fones de ouvido sem fio provocaria Alzheimer precoce. A gravação, manipulada com recursos de inteligência artificial (IA), foi analisada pelo projeto Fato ou Fake, do portal g1, e classificada como falsa.
No material, um homem aconselha os internautas a “jogarem fora” os fones bluetooth, sustentando que os aparelhos funcionariam como “pequenos fornos de micro-ondas” encostados na cabeça e seriam capazes de romper a barreira hematoencefálica, permitindo a entrada de toxinas no cérebro. Segundo ele, esse processo resultaria em “névoa mental, dores de cabeça e perda de memória”. Nenhuma das afirmações possui respaldo científico.
Análise de conteúdo detecta uso de IA
Para verificar a autenticidade das imagens, o Fato ou Fake submeteu um trecho do vídeo às plataformas Hive Moderation e Hiya. O primeiro sistema apontou 99% de probabilidade de edição com IA, enquanto o detector de áudio indicou 97% de chance de a fala ter sido gerada artificialmente.
Especialista nega relação entre fones bluetooth e demência
O neurologista Bruno Iepsen, integrante da comissão científica da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, reforçou que não há qualquer evidência de vínculo entre radiação emitida por dispositivos bluetooth e doenças neurodegenerativas. Ele destacou:
• Ausência de provas científicas: revisões de estudos realizadas por órgãos como Organização Mundial da Saúde (OMS), Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante (ICNIRP) e Food and Drug Administration (FDA) não encontraram associação consistente entre o uso de fones sem fio e Alzheimer.
• Radiação não ionizante: a energia irradiada por fones bluetooth, em torno de 2,5 mW, é centenas de milhares de vezes menor que a de um forno de micro-ondas doméstico, que opera com 700 a 1 000 W.
• Potência insuficiente para dano biológico: a comparação com aparelhos de cozinha é tecnicamente incorreta, pois a potência — e não apenas a frequência — determina o impacto sobre tecidos humanos.
• Barreira hematoencefálica intacta: estudos que sugeriram alterações dessa proteção cerebral envolveram exposições muito superiores às encontradas na prática e apresentaram resultados inconsistentes.
• Falácia da “invasão de toxinas”: mesmo em condições médicas que afetam a barreira, a entrada de substâncias no cérebro é limitada e controlada por outros mecanismos de defesa.
Normas internacionais garantem limites de segurança
A ICNIRP estabelece limites rigorosos para a exposição humana a radiofrequência, e os fones sem fio operam muito abaixo desses parâmetros. O principal efeito físico conhecido da radiação em radiofrequência é o aquecimento; contudo, nos miliwatts emitidos por dispositivos de consumo, não há aumento mensurável de temperatura nos tecidos.
Imagem: Reprodução
O vídeo faz parte de uma série de conteúdos enganosos que circulam nas redes sociais sobre supostos riscos dos fones bluetooth. Alertas semelhantes já foram verificados e desmentidos pelo Fato ou Fake, incluindo publicações que envolvem celulares, roteadores wi-fi e torres de telefonia.
O projeto de verificação de fatos encoraja usuários a enviar links suspeitos pelo WhatsApp (+55 21 97305-9827) para averiguação. A recomendação de especialistas permanece a mesma: não há motivo para descartar fones sem fio por medo de Alzheimer, desde que os dispositivos sejam utilizados conforme as normas de segurança vigentes.
Com informações de G1
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