Especialistas veem ataque dos EUA à Venezuela como ameaça à ordem multilateral

Robson Alves
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Analistas ouvidos pela Agência Brasil alertam que a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, realizada na madrugada de sábado (3), fere a soberania venezuelana e coloca em risco o sistema multilateral criado após a Segunda Guerra Mundial.

Na ação, militares norte-americanos removeram à força o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores do território venezuelano, mataram integrantes das forças de segurança ligadas ao governo e provocaram explosões em Caracas. Maduro foi levado a Nova York e, segundo Washington, responderá a acusações de envolvimento com tráfico internacional de drogas.

Violação de soberania

Para o cientista político Bruno Lima Rocha, professor de Relações Internacionais da Faculdade São Francisco de Assis (Unifin), o episódio representa “um ataque direto” à soberania venezuelana. “Não existe, no direito internacional, autorização para que os Estados Unidos atuem como polícia do mundo”, afirmou. Mesmo que as denúncias contra Maduro fossem verdadeiras, acrescentou, nenhum organismo internacional conferiu aos EUA poder para capturar um chefe de Estado estrangeiro.

Rocha classificou a operação como sequestro e manifestou preocupação de que o objetivo seja assumir o controle das maiores reservas de petróleo do mundo, situadas na Venezuela.

Impacto regional

O pesquisador avalia que outros países latino-americanos detentores de recursos minerais estratégicos correm riscos semelhantes, especialmente se restringirem a exploração a empresas estatais ou firmarem acordos com Rússia e China em moedas que não o dólar.

No caso brasileiro, Rocha acredita que o atual marco legal, que permite a participação de companhias estrangeiras na exploração de petróleo e minérios sob regulação nacional, reduz a probabilidade de um confronto direto.

Brasil em posição delicada

Gustavo Menon, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), considera que o Brasil enfrenta um cenário geopolítico “muito delicado”. Segundo ele, a diplomacia brasileira tende a defender a solução pacífica de conflitos, a não intervenção e os direitos humanos.

Menon destacou que o Itamaraty reconhece a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela e vê com preocupação a ação militar norte-americana, que “quebra a tradição da América do Sul como região de paz”.

Fragilidade do sistema multilateral

Os entrevistados concordam que o episódio enfraquece as instituições formadas após 1945. “Estamos presenciando o colapso desse sistema”, disse Menon. Para Rocha, o governo Donald Trump “jogou no lixo” os mecanismos criados no pós-guerra.

Menon acrescentou que não houve aval do Congresso dos EUA nem mandado judicial para a incursão, o que caracteriza violação das normas internas norte-americanas e dos princípios do direito internacional.

Próximos passos

A expectativa dos especialistas é de que Washington mantenha presença na Venezuela para controlar as reservas petrolíferas e sinalizar a Moscou e a Pequim que a América Latina permanece sob influência estadunidense. “Ver uma superpotência invadindo um país sul-americano é uma ameaça a toda a região”, concluiu Rocha.

Fonte: Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.