Brasília – Pesquisa da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) revela que 33,9% dos motociclistas atendidos nos principais serviços de ortopedia do país passam a conviver com sequelas permanentes após sinistros de trânsito. O estudo ouviu 95 chefes e preceptores de residências médicas credenciadas pela entidade e foi apresentado, na quinta-feira (17), em fórum na Câmara dos Deputados.
Atendimentos mensais e perfil das vítimas
Os serviços consultados registraram média de 360 vítimas de trânsito por mês nos últimos seis meses — mais de dez internações diárias. Dois terços dos pacientes eram motociclistas; 72,8% homens e 40,7% tinham entre 20 e 29 anos. Do total, 29,2% haviam ingerido álcool e 16% usaram outras drogas.
A maior parte dos sinistros envolveu colisões com automóveis (47,1%) ou quedas (44,5%). Entre os acidentados, 64% pilotavam a moto, 23,2% estavam na garupa e 10,9% eram pedestres atingidos.
Sequelas e complicações
Após a alta, 56,7% apresentaram poucas sequelas, enquanto 33,9% ficaram com limitações definitivas. Dores crônicas foram relatadas em 82% dos casos. Entre as sequelas mais graves, 69,5% tiveram deformidades, 67,4% déficit motor e 35,8% sofreram amputações.
As lesões exigiram cuidados de média (43,2%) ou alta complexidade (32,6%). Membros inferiores foram atingidos em 51,4% dos pacientes; membros superiores e coluna, em 22,8% cada. Infecções pós-operatórias ocorreram em 6,5% e 12,9% precisaram de nova internação.
Impacto nas cirurgias hospitalares
Por mês, os serviços de ortopedia realizaram em vítimas de motocicleta 45 cirurgias de baixa complexidade, 58 de média e 43 de alta. A demanda levou ao adiamento de 18 cirurgias eletivas e ao cancelamento de oito procedimentos de emergência por mês.
Sessenta por cento das vítimas foram operadas em até sete dias; 31% esperaram entre 7 e 15 dias e 8% mais de 15 dias. No pós-operatório, 71,6% ficaram internadas menos de uma semana, 16,8% até 15 dias e 11,6% de 15 a 30 dias.
Programas e propostas
A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) elabora um programa nacional de segurança para motociclistas e recebe sugestões até 29 de setembro pela Plataforma Brasil. Entre as ações em teste está a implantação de faixas azuis exclusivas para motos em 50 trechos de São Paulo, Santo André, São Bernardo do Campo, Salvador e Recife, com avaliação prevista para 31 de março do próximo ano.
No fórum, o representante do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass), Leonardo Vilela, defendeu redução de incentivos fiscais à produção de motocicletas e barateamento da habilitação para condutores. Já o diretor-executivo do Sindmoto-RJ, Marcelo Matos, cobrou campanhas massivas de conscientização e melhores garantias para motociclistas de aplicativos.
Exemplo de vida alterada
A pesquisa citou o caso de Jéssica Santos, 29 anos, que se acidentou em novembro passado ao voltar de festa na garupa de uma moto no Rio de Janeiro. Ela sofreu múltiplas fraturas, passou por cirurgias e, quase um ano depois, ainda não recuperou totalmente a força da mão esquerda nem está livre das dores na bacia.
Para o presidente da SBOT, Paulo Lobo, a campanha Na moto, na moral tenta ampliar a segurança viária em um contexto que ele classifica como “epidemia de sinistros com motos”.
Fonte: Agência Brasil
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