O Departamento de Estado dos Estados Unidos cancelou, no mesmo dia, vistos de servidores brasileiros ligados ao Mais Médicos e de funcionários de governos da África, de Granada e de Cuba que participam de programas de cooperação sanitária com Havana. Para o analista de geopolítica Hugo Albuquerque, a decisão busca aumentar o isolamento internacional de Cuba e, paralelamente, pressionar politicamente o Brasil.
Justificativa norte-americana
Em nota, a chancelaria norte-americana afirmou que o modelo de cooperação “enriquece um regime corrupto e priva o povo cubano de cuidados essenciais”. O comunicado, assinado pelo secretário de Estado – o senador de origem cubana Marco Rubio –, acrescenta que Washington “tomará todas as medidas necessárias para pôr fim a esse trabalho forçado”.
Reação de Havana
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, repudiou a sanção e defendeu a exportação de serviços médicos como fonte legítima de receita. Segundo ele, a colaboração atende a pedidos de governos estrangeiros “com benefício mútuo” e, em vários casos, é oferecida de forma gratuita.
Importância econômica do setor
Dados do Ministério da Saúde de Cuba indicam que 24 mil profissionais atuam atualmente em 56 países. Estudo do sociólogo Samuel Farber, da Universidade da Califórnia em Berkeley, estima que, em 2019, a prestação de serviços médicos respondeu por 46% das exportações cubanas e por 6% do Produto Interno Bruto. Desde a década de 1960, 605 mil médicos cubanos trabalharam em 165 nações.
Lideranças caribenhas reagem
Chefes de governo do Caribe, região com longa tradição de parceria sanitária com Havana, criticaram a pressão dos EUA. A premiê de Barbados, Mia Mottley, disse que a ilha não teria superado a pandemia de Covid-19 sem a ajuda dos profissionais cubanos e afirmou não temer perder o visto norte-americano. Em Trinidad e Tobago, o primeiro-ministro Keith Rowley declarou que pagou aos técnicos cubanos os mesmos valores praticados no país e rejeitou a acusação de tráfico de pessoas. Ralph Gonsalves, líder de São Vicente e Granadinas, também recusou romper o acordo: “Não deixarei 60 pacientes sem hemodiálise para preservar um visto”, afirmou.
Efeitos sobre o Brasil
Para Hugo Albuquerque, o cancelamento de vistos de servidores brasileiros ligados ao Mais Médicos eleva a tensão bilateral. O analista avalia que o governo Donald Trump “escalou a crise” após considerar insuficientes as barreiras comerciais impostas ao Brasil e teme ver o país se afastar da influência de Washington em meio à disputa com a China.
Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Situação do Mais Médicos
Entre 2013 e 2018, o Brasil manteve acordo com Cuba via Organização Pan-Americana da Saúde que chegou a empregar 11 mil médicos, mais da metade do contingente do programa. Hoje, 2,6 mil cubanos ainda atuam em território brasileiro, selecionados por editais abertos a estrangeiros. O Ministério da Saúde calcula que o Mais Médicos atenda mais de 4 mil municípios e já tenha beneficiado 66,6 milhões de pessoas. No primeiro ano de funcionamento, a cobertura de atenção básica saltou de 10,8% para 24,6% da população.
Os Estados Unidos mantêm um embargo econômico à ilha caribenha há mais de seis décadas, medida condenada pela maioria dos países em votações recorrentes na Organização das Nações Unidas.
Com informações de Agência Brasil
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