O embaixador Celso Amorim, assessor especial para Assuntos Internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a ampliação de parcerias comerciais é fundamental para garantir a autonomia brasileira diante da influência dos Estados Unidos. A declaração foi feita na noite de segunda-feira (11), durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.
Pressão norte-americana
Segundo Amorim, a Casa Branca busca desestabilizar governos progressistas na América Latina para manter a região sob sua área de influência, retomando, de forma implícita ou explícita, os princípios da Doutrina Monroe. “Para não sermos quintal de ninguém, precisamos diversificar nossos parceiros; a diversificação é o novo nome da independência”, declarou.
O diplomata classificou o ambiente como um “quase estado de guerra” após informações de que o ex-presidente Donald Trump teria exigido da China o quadruplicamento da compra de soja norte-americana, o que poderia reduzir a demanda pelo produto brasileiro. “Isso não é uma vitória na competição, é pela força”, disse.
Fim do multilateralismo e apoio à extrema-direita
Amorim avaliou que um eventual segundo mandato de Trump significaria o fim do multilateralismo e o fortalecimento de blocos regionais dominados pelos EUA, que, segundo ele, têm apoiado movimentos de extrema-direita em diferentes países. “Eles querem considerar a América do Sul e o Brasil como parte do seu quintal. Não vamos aceitar”, afirmou.
Estratégia de diversificação
O assessor destacou que a estratégia brasileira não se limita ao Brics; inclui acordos com a União Europeia, Mercosul, países africanos e integrantes da Asean. Ele salientou que o bloco dos Brics reúne nações com posições políticas diversas, como Emirados Árabes Unidos, Índia e Indonésia, e não deve ser rotulado ideologicamente.
Integração latino-americana
Amorim reconheceu dificuldades para retomar a integração regional diante do avanço da extrema-direita em parte dos países e da forte dependência econômica do México e do Caribe em relação aos EUA. Ele defendeu a reativação do Conselho Sul-Americano de Saúde e do Conselho Sul-Americano de Defesa, lembrando que o processo ficou paralisado por cerca de seis anos. O diplomata citou o Consenso de Brasília, assinado em 2023 por 11 países, como passo para reaproximar a região.
Desdolarização inevitável
Questionado sobre iniciativas para reduzir o uso do dólar em transações internacionais, o embaixador afirmou que a adoção de moedas locais ocorrerá “independentemente da vontade dos governantes” devido às mudanças no sistema multilateral. Para ele, países buscarão novas formas de garantir estabilidade e crescimento do comércio.
Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Mercado norte-americano continua relevante
Amorim observou que os EUA ainda respondem por 12% das exportações brasileiras — percentual que já foi de 24% no início dos anos 2000 — e compram produtos que outros mercados não adquirem. Porém, considerou o ambiente imprevisível: “Um dia é uma disputa tarifária; no outro, apoio à extrema-direita ou ataques ao nosso Judiciário. Isso reforça a necessidade de diversificar”.
Dignidade nacional
Rebatendo críticas de que o governo seria anti-americano, Amorim lembrou que administrações anteriores de Lula mantiveram boa relação com Washington, inclusive com o republicano George W. Bush. Ele afirmou que parte da sociedade demonstra “mentalidade de dependência” e defendeu a “integridade da dignidade nacional”.
No encerramento da entrevista, o embaixador resumiu: “A era da autossuficiência acabou; quem não diversificar ficará vulnerável”.
Com informações de Agência Brasil
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