Sensores de rádio já registram batimentos cardíacos sem contato, e especialistas alertam para riscos de privacidade

William Kevim
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Medir a frequência cardíaca deixou de exigir fios, eletrodos ou relógios inteligentes. Pesquisas recentes demonstram que radares de uso civil, semelhantes aos instalados em laptops, roteadores e até veículos, conseguem captar microvibrações do tórax provocadas pelo coração a vários metros de distância. A mesma tecnologia que promete revolucionar o monitoramento médico acende um sinal de alerta sobre quem terá acesso a informações tão íntimas.

Como o radar “ouve” o coração

O princípio é parecido com o eco usado por morcegos: o equipamento emite ondas de rádio, recebe o sinal refletido e interpreta pequenas variações causadas pelo movimento interno do corpo. Estudos apontam erro médio de 5 a 6 batimentos por minuto em relação a dispositivos de contato, desempenho suficiente para acompanhamento contínuo em situações cotidianas e mesmo dentro de carros em movimento.

Além da frequência, os sensores extraem a variabilidade da frequência cardíaca (HRV, na sigla em inglês), parâmetro diretamente ligado ao sistema nervoso autônomo e a estados de estresse ou fadiga. Segundo pesquisas publicadas nos últimos anos, a HRV pode indicar, por exemplo, sofrimento psicológico antes que o próprio indivíduo perceba alterações de humor.

Aplicações médicas em expansão

Revisões científicas de 2022 e 2024 listam avanços como detecção de apneia do sono com acurácia de 80% a 90%, monitoramento de bebês prematuros sem eletrodos sobre a pele frágil, acompanhamento domiciliar de pacientes cardíacos e identificação de sinais vitais sob escombros após desastres. O instituto alemão Fraunhofer IDMT conduz projeto nesse campo, inicialmente voltado ao sono e hoje ampliado para doenças pulmonares crônicas e prevenção de quedas de idosos.

Em outra frente, experimentos realizados com 30 voluntários em escritórios mostraram que sensores ocultos em cadeiras avaliaram com precisão comparável ao eletrocardiograma a variação dos batimentos em sessões de cinco minutos, identificando trabalhadores com alto nível de sofrimento psicológico.

O outro lado da moeda

O mesmo radar capaz de vigiar silenciosamente a respiração de um idoso também poderia medir, sem consentimento, o stress de funcionários durante o expediente. Pesquisadores da Rice University, nos Estados Unidos, publicaram em fevereiro um artigo demonstrando que sensores já integrados a notebooks detectam presença, cansaço e estados fisiológicos de uma pessoa diante da tela.

“A falta de regulamentação leva à tendência de transformar esse sensoriamento em ferramenta de vigilância”, afirmou ao g1 a pesquisadora Dora Zivanovic, responsável pelo estudo. Para o professor Zhambyl Shaikhanov, da Universidade de Maryland, há ainda um fator físico que dificulta a defesa: “Radares de ondas milimétricas atravessam tecido e captam sinais sutis sem contato visual direto, algo impossível para câmeras em determinadas situações”.

Tentativas de proteção

Com base nesse risco, a própria equipe de Zivanovic desenvolveu o MetaHeart, painel composto por metassuperfícies que substitui o eco real do coração por um padrão fabricado, enganando o radar com 98% de eficácia em testes de laboratório. A proposta, porém, enfrenta dois obstáculos destacados por Shaikhanov: saber a frequência exata do sensor adversário e ampliar o dispositivo para cobrir áreas corporais maiores, mantendo leveza e baixo custo.

O que diz a legislação brasileira

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados biométricos como sensíveis, mas não descreve de forma explícita medições como frequência cardíaca ou respiração. “O enquadramento depende da possibilidade de associar o dado a uma pessoa identificável e das inferências que se fazem a partir dele”, explicou Eduardo Telles, do escritório Tauil & Chequer associado à Mayer Brown.

A ausência de transparência é apontada como maior risco jurídico. Para a advogada Ana Letícia Allevato, organizações que pretendem adotar sensores remotos devem elaborar Relatório de Impacto à Proteção de Dados antes da implantação, documentando necessidade, proporcionalidade e alternativas menos invasivas. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já sinalizou intenção de endurecer regras para biometria; em 2025 o órgão suspendeu um programa que pagava usuários pela leitura da íris.

Na esfera internacional, a União Europeia aprovou norma que, a partir de 2025, proíbe sistemas que infiram emoções de trabalhadores a partir de sinais fisiológicos captados por radar, câmera ou relógio inteligente. Pesquisadores acreditam que medidas semelhantes ganharão força à medida que a tecnologia se populariza, tornando cada vez mais tênue a fronteira entre cuidado médico e vigilância.

Com informações de G1

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William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.