A família Lee, controladora da Samsung, completou o pagamento de um imposto sobre herança de 12 trilhões de wons — equivalente a cerca de R$ 40 bilhões — relacionado ao espólio do ex-presidente do grupo, Lee Kun-hee, morto em outubro de 2020.
A Samsung confirmou no domingo (3/5) que a última parcela foi quitada. O valor, informado pela empresa, corresponde aproximadamente a uma vez e meia a receita total da Coreia do Sul com imposto sobre herança em 2024. A alíquota do tributo no país é de 50%, entre as mais altas do mundo.
O pagamento foi realizado em seis parcelas ao longo dos últimos cinco anos por Lee Jae-yong, presidente do grupo, e por outros membros da família, incluindo a mãe, Hong Ra-hee, e as irmãs Lee Boo-jin e Lee Seo-hyun. O imposto incide sobre o espólio de Lee Kun-hee, estimado em 26 trilhões de wons e composto por ações, imóveis e coleções de arte.
Parte dessas coleções, com obras de Pablo Picasso e Salvador Dalí, foi doada ao Museu Nacional da Coreia e a outras instituições culturais, segundo a família. Na ocasião da morte de Lee Kun-hee, a família afirmou que “pagar impostos é um dever natural dos cidadãos”.
Relevância econômica e valor de mercado
A conclusão do pagamento chamou atenção de investidores porque poderia ter influenciado a capacidade dos Lee de manter o controle sobre o conglomerado sem vender participações relevantes. Segundo o Bloomberg Billionaires Index, a fortuna combinada da família ultrapassa US$ 45 bilhões, tendo mais que dobrado no último ano impulsionada pela alta na demanda por chips para inteligência artificial, fator que elevou o valor de mercado da Samsung Electronics.
Além da produção de semicondutores, a Samsung é um dos maiores fabricantes mundiais de smartphones e televisores, e opera em setores que vão de indústria pesada a serviços financeiros.
Contexto da sucessão e processos judiciais
A quitação do imposto ocorre em meio a um histórico conturbado de sucessão que incluiu acusações, prisões e disputas familiares. Em 2017, Lee Jae-yong, hoje com 57 anos, foi preso em meio a um escândalo de corrupção que também levou ao impeachment da então presidente Park Geun-hye. Ele foi acusado de ter doado recursos a fundações ligadas a Choi Soon-sil em troca de apoio político para uma fusão — entre a Samsung C&T e a Cheil Industries — que teria fortalecido seu controle sobre o grupo. Na ocasião, promotores também apontaram uso de fraude contábil e manipulação de ações.
Lee sempre negou as acusações de fraude, mas foi considerado culpado por suborno em 2017. As investigações e processos se estenderam por anos, em meio a um debate público sobre o papel dos chaebols — grandes conglomerados familiares — na economia sul-coreana.
Ao longo das últimas décadas, a família enfrentou outras turbulências: um delator em 2008 revelou a existência de um fundo usado para pagamentos ilícitos; em 2012 houve uma disputa judicial com o tio de Lee Jae-yong, Lee Maeng-hee, sobre direitos na sucessão; e o patriarca Lee Kun-hee chegou a receber um perdão presidencial que o permitiu retornar ao comando do grupo.
Em julho de 2025, o Supremo Tribunal de Seul confirmou a absolvição de Lee Jae-yong por suposta fraude relacionada à fusão que teria assegurado sua sucessão, encerrando uma década de litígios e penas de prisão relacionadas ao caso. Durante o processo, Lee afirmou que não transferiria direitos gerenciais aos filhos, prometendo evitar novas controvérsias sobre sucessão.
Com o imposto quitado e os desdobramentos jurídicos recentes, a Samsung segue com sua estrutura de controle familiar, enquanto permanece como peça central da economia sul-coreana.
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