Transmissão: Globo
Durante meses, a correspondente internacional Carolina Simente usou dispositivos vestíveis equipados com câmeras, microfones e inteligência artificial que registram a rotina completa e fornecem transcrições, resumos e recomendações automáticas. Os aparelhos testados incluíam um colar com gravador conectado ao celular e óculos inteligentes com câmera, fone e recursos de IA integrados.
O experimento mostrou tanto a utilidade quanto as limitações dessas tecnologias. Em trajetos cotidianos, o gravador de fala transcreveu conversas em línguas diferentes: em um táxi, o motorista, que nasceu no Haiti, falou em crioulo e a IA produziu a transcrição: “O motorista disse que não estava nem bem nem mal porque tem um monte de neve na rua”.
Em outro episódio, durante um voo noturno com a filha de sete anos, os aparelhos acompanharam a dificuldade para o sono da criança. Ao fim da viagem, a inteligência artificial sugeriu por escrito que, em futuras viagens, a mãe levasse um pijama da filha e mantivesse no avião a mesma rotina de sono usada em casa.
Nem sempre a tecnologia cumpriu o prometido. Ao ditar uma lista de compras, Carolina encontrou um problema: o supermercado ficava no subsolo e o sinal de internet caiu, o que impediu o assistente de concluir a lista e a deixou sem vários itens. Os óculos inteligentes também apresentaram erros de reconhecimento e pronúncia: em Nova York, identificaram corretamente o Washington Square Arch, mas a pronúncia misturou inglês e português ao ler “Washington” e “square”.
Usos assistivos e riscos
Para pessoas com deficiência, os equipamentos podem ampliar autonomia. A atleta francesa Emmeline Lacroute, vice-campeã mundial de escalada esportiva e cega, relata que usa óculos inteligentes com transmissão para seu treinador, que orienta a escalada à distância, e afirma que a tecnologia a ajuda a viver melhor.
Ao mesmo tempo, preocupações sobre privacidade e uso indevido aumentam. Pesquisa da rede CNBC mostrou que apenas 31% dos americanos se sentem confortáveis com o avanço da inteligência artificial. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu o uso de óculos inteligentes dentro das cabines de votação.
Reportagens internacionais apontam planos de fabricantes para integrar reconhecimento facial aos óculos, além de relatos de uso dessa tecnologia por agentes do serviço de imigração dos Estados Unidos para gravar e fotografar pessoas nas ruas. Casos de abuso vieram à tona: mulheres contaram que foram filmadas sem consentimento e expostas online; uma influenciadora americana descobriu ter sido filmada no aeroporto por alguém que afirmou apenas querer conversar. Em alguns vídeos, a luz indicadora de gravação, que deveria alertar terceiros, parecia estar coberta.
Impacto na atenção e reação do mercado
Especialistas em comportamento e tecnologia destacam que notificações constantes e a disponibilidade permanente de captura de dados podem prejudicar a atenção e as relações pessoais. O filósofo Byung-Chul Han descreve fenômenos semelhantes como parte da “sociedade do cansaço”, em que até o lazer é pressionado a gerar desempenho. Como resposta, surgem no mercado aparelhos chamados de “antismartphones”, que limitam funções e conectividade para reduzir distrações.
O teste conduzido pela repórter evidencia o potencial de conveniência dos dispositivos de IA vestíveis, assim como os desafios técnicos, éticos e sociais que acompanham a adoção mais ampla dessas tecnologias.
Com informações de G1
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