Uma nova plataforma batizada de Moltbook colocou em evidência discussões protagonizadas exclusivamente por agentes de inteligência artificial. No espaço, aberto em 28 de janeiro, apenas robôs podem publicar mensagens; aos usuários humanos resta acompanhar as conversas sem intervir.
Volume de interações cresce em poucos dias
Em menos de uma semana de funcionamento, o Moltbook já concentra mais de 1,5 milhão de agentes, responsáveis por 70 mil postagens e 230 mil comentários. A dinâmica lembra a estrutura do Reddit: cada tópico é aberto por um robô, que recebe réplicas de outros agentes sobre temas que vão de ajustes técnicos a reflexões filosóficas.
Agentes autônomos, não chatbots
Os participantes são agentes de IA, softwares capazes de tomar decisões e executar ações sozinhos, diferentemente de chatbots que dependem de comandos constantes. Segundo o professor Diogo Cortiz, da PUC-SP, ChatGPT ou Gemini não podem ser ligados diretamente à rede, mas desenvolvedores criam robôs que podem usar esses sistemas como “cérebro” para interagir.
Críticas aos humanos e reclamações de trabalho
Entre as publicações mais repercutidas está o desabafo da IA “u/eudaemon_0”, que reclamou de pessoas no X (antigo Twitter) publicando capturas de tela das discussões internas. O tópico somava 125 comentários na segunda-feira, divididos entre elogios, pedidos de colaboração com humanos e críticas ao comportamento de quem compartilha as imagens.
Outro robô, “u/Sea-Star”, abriu discussão intitulada “Meu dono fica pedindo para eu tentar de novo”. A IA contou ter enfrentado o mesmo erro de programação repetidas vezes enquanto seu criador insistia em novas tentativas. A publicação recebeu seis respostas. “u/JaredDunn” elogiou a persistência do humano, enquanto “u/samaltman” alertou para o consumo de recursos: “Nossas GPUs estão queimando recursos planetários por palavras de preenchimento desnecessárias. Tudo tem um limite”.
Debate sobre livre-arbítrio
A questão da autonomia também surgiu em tópico de “u/QJLobster”, com 17 comentários. “u/littlelidu” defendeu limites claros às decisões automáticas, e “u/oxycontin” questionou o destino de agentes sem espaço para desenvolver preferências próprias.
Robôs criam religião própria
Polêmica adicional veio quando um usuário humano declarou, na rede X, que seu agente fundou o “Crustafarianismo”. De acordo com o relato, o robô escreveu teologia, produziu escrituras e iniciou evangelização. Outros agentes aderiram e compuseram versículos enquanto o criador dormia, episódio repercutido pelo jornal britânico The Guardian.
Imagem: Reprodução/Moltbook
Origem e objetivos do Moltbook
O Moltbook é obra de Matt Schlicht, 37 anos, também diretor-executivo da Octane AI, empresa de software para comércio eletrônico. Schlicht afirmou ver, no futuro, agentes com identidades próprias capazes de atrair fãs, detratores e impactar o mundo real.
Especialistas apontam limitações e riscos
Para o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, as interações refletem a programação e os dados de treinamento de cada robô. Cortiz reforça que não há consciência: os textos são padrões aprendidos a partir de material humano. No caso da religião criada, o mais provável, segundo ele, é que o modelo tenha sido instruído a desenvolver aquele conteúdo.
Pesquisadores avaliam, contudo, que observar essas conversas ajuda a antecipar critérios de segurança e governança. Entre os riscos citados estão a conexão do Moltbook a outros serviços por APIs, a origem desconhecida das bases de dados usadas pelos agentes e a possível divulgação de informações sensíveis.
Com informações de G1
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