Brasília — A Polícia Federal (PF) abriu inquérito para apurar a disseminação, no TikTok, da tendência intitulada “Caso ela diga não”, vídeos em que criadores simulam agressões físicas contra manequins femininos como “resposta” a rejeições. A corporação solicitou à plataforma a retirada imediata dos materiais, avaliados como incentivo à violência contra mulheres.
Em nota, o TikTok informou ter removido todas as publicações identificadas, alegando violação das políticas internas de conteúdo. A repercussão ocorre poucos dias após um caso que chocou o país: uma adolescente de 17 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo em 31 de janeiro, em apartamento de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. A Justiça decretou a prisão preventiva de quatro suspeitos; um quinto, menor de idade, foi apreendido. Imagens exibidas pelo programa Fantástico, da TV Globo, mostraram os investigados rindo e debochando da vítima dentro do elevador logo após o crime.
Estudo aponta reversão de atitudes na geração Z
Enquanto autoridades brasileiras tentam conter a propagação de conteúdo misógino, pesquisa realizada pela Ipsos em parceria com o King’s College de Londres indica que redes sociais têm papel decisivo no aumento dessas condutas. O levantamento entrevistou 23 mil pessoas em 29 países e constatou que 31% dos homens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) concordam que “a esposa deve sempre obedecer ao marido”. Entre homens com 60 anos ou mais, essa proporção cai para 13%.
Para a professora Heejung Chung, que dirige o Instituto Global para a Liderança das Mulheres no King’s College e coassina o estudo, influenciadores e figuras políticas “exploram ressentimentos” para reacender ideias de dominância masculina. Penny East, diretora-executiva da organização britânica Fawcett Society, avalia que meninos e meninas consomem diariamente “níveis chocantes de misoginia, on-line e off-line”, o que ajudaria a explicar a adesão a discursos de obediência feminina.
O levantamento ainda mostrou que 44% dos entrevistados, globalmente, acreditam que a promoção da igualdade feminina “foi longe demais e passou a discriminar os homens”. Segundo a ONU Mulheres, nenhum país alcançou igualdade legal plena, e as mulheres detêm apenas 64% dos direitos de que os homens dispõem.
Propostas legislativas em debate no Congresso
No Congresso Nacional, parlamentares articulam medidas para frear a propagação de ódio contra mulheres na internet. Na Câmara, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou projeto que criminaliza a misoginia e pune conteúdos relacionados à chamada cultura “red pill”. No Senado, a Comissão de Direitos Humanos deve analisar proposta da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) que inclui a misoginia na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), ampliando o rol de crimes de discriminação.
Enquanto a discussão parlamentar avança, a PF segue coletando depoimentos e materiais sobre a trend “Caso ela diga não”. O objetivo é identificar autores dos vídeos e possíveis conexões com grupos que propagam discursos misóginos em outras plataformas. A investigação tem como base a legislação que tipifica incitação ao crime e apologia à violência, podendo resultar em penas de até seis meses de detenção, além de multa.
Em âmbito internacional, produções semelhantes também circularam, repetindo a simulação de agressões após rejeições femininas. Pesquisadores alertam que o efeito de normalização da violência, somado ao alcance global das redes, pode reforçar comportamentos agressivos entre usuários mais jovens.
TRANSMISSÃO: Globo
Com informações de G1
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