Relatório com 1.352 páginas e 600 cientistas expõe crise marinha sem precedentes. Aquecimento, poluição e sobrepesca destroem ecossistemas e exigem resposta global urgente.
Os oceanos enfrentam uma “crise crescente” que exige ação global imediata. Este alerta foi emitido em um importante relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado na segunda-feira (8). O documento, que possui 1.352 páginas, é o resultado de cinco anos de trabalho de 600 cientistas de diversas partes do mundo e detalha o impacto das mudanças climáticas, da poluição e da sobrepesca nos ecossistemas marinhos.
O relatório enfatiza que os oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta, estão passando por aquecimento e elevação do nível do mar de forma acelerada. A terceira Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA, na sigla em inglês) ressalta a importância desses ambientes para a vida na Terra, mas alerta que sua saúde está em risco devido a pressões crescentes sobre os ecossistemas.
“O oceano é a base da vida na Terra. Mas sua saúde está em grave risco, à medida que os ecossistemas e habitats se aproximam ou ultrapassam pontos de inflexão críticos”, afirmou a WOA.
A avaliação destaca que o aquecimento das águas contribui para a elevação do nível do mar, que tem se intensificado nas últimas décadas. Desde 2018, cerca de 16% do aumento total no conteúdo de calor dos oceanos foi registrado. Os oceanos absorveram mais de 90% do calor excessivo e 30% do CO2 que está na atmosfera, resultante da queima de combustíveis fósseis.
O relatório também revela que o nível do mar está subindo a taxas crescentes, passando de menos de 2,0 milímetros por ano antes de 2015 para 4,3 milímetros em 2023. Essa mudança, embora pareça pequena em milímetros, pode ter um impacto significativo a longo prazo.
O ecologista marinho Ian Butler, que coordenou o grupo de especialistas da WOA, alertou sobre a possibilidade de um Oceano Ártico sem gelo em partes do ano dentro de 10 ou 20 anos, o que pode alterar a geopolítica global. Além disso, as mudanças climáticas estão forçando algumas espécies de peixes a migrar para águas mais frias ou profundas, enquanto os recifes de coral enfrentam um colapso devido a ondas de calor e tempestades frequentes.
“Algumas não têm futuro algum porque não há para onde ir”, alertou Butler.
O relatório também destaca a necessidade urgente de reduzir a produção de plásticos, que afetam mais de 4.000 espécies marinhas. Atualmente, cerca de 52,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos são despejadas no oceano anualmente, contribuindo para um total estimado de 24,4 trilhões de partículas de microplástico presentes nas águas.
A WOA aplaudiu a entrada em vigor de um tratado da ONU em janeiro, que visa proteger e utilizar de forma sustentável a vida marinha em águas internacionais, considerando-o um marco histórico para a gestão dos oceanos. Contudo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, enfatizou que é necessário construir uma nova relação com os oceanos, fundamentada na ciência e na responsabilidade compartilhada.
“Não podemos continuar tratando o oceano como ilimitado”, afirmou Guterres.
Com o alerta da WOA, espera-se que os governos tomem medidas para proteger os oceanos, que são vitais para a saúde do planeta e para a sobrevivência de bilhões de pessoas que dependem deles.
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