Netflix revive bastidores do Tri de 70 com drama e polêmica histórica

Rafael Ramos
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Minissérie da Netflix mergulha nos bastidores da Copa de 1970 com Rodrigo Santoro e Bruno Mazzeo. A produção mistura fatos reais e ficção, gerando debate sobre o que realmente aconteceu.

A minissérie Brasil 70: A Saga do Tri, lançada pela Netflix, reacendeu o interesse do público por um dos momentos mais emblemáticos da história do futebol brasileiro: a conquista da Copa do Mundo de 1970, no México.

Com Rodrigo Santoro no papel de João Saldanha, Bruno Mazzeo como Zagallo e Lucas Agrícola interpretando Pelé, a produção combina acontecimentos reais com elementos ficcionais para construir uma narrativa dramática sobre os bastidores da campanha que transformou a Seleção Brasileira na primeira tricampeã mundial.

Mas até que ponto o que aparece na tela realmente aconteceu? A resposta passa pela própria proposta da série. Desde sua divulgação, a Netflix apresentou a obra como uma ficção baseada em fatos reais, recriando diálogos, conflitos e situações para preencher lacunas históricas e aproximar o espectador dos personagens.

Entre os aspectos considerados historicamente corretos está a tensão envolvendo Pelé antes do Mundial de 1970. A série mostra um jogador traumatizado pela experiência na Copa de 1966 e relutante em retornar à Seleção. Esse elemento possui forte base documental.

Após as agressões sofridas durante o torneio na Inglaterra, Pelé chegou a declarar publicamente que não pretendia disputar outra Copa do Mundo.

A resistência inicial retratada pela produção, portanto, corresponde a fatos registrados na época.

Outro ponto fiel à realidade é a presença de João Saldanha como figura central na preparação da equipe. O treinador foi responsável pela campanha perfeita nas Eliminatórias, mas acabou substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo poucos meses antes do Mundial. A troca gerou polêmicas e alimenta debates históricos até hoje.

A série explora esse conflito como um dos motores dramáticos da narrativa. Também é verdadeira a contextualização política do período. A conquista ocorreu durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira, e a relação entre futebol e política aparece constantemente na produção.

Historiadores reconhecem que o regime buscou capitalizar o sucesso esportivo da Seleção do Brasil como instrumento de propaganda nacionalista, embora o grau dessa influência continue sendo objeto de discussão acadêmica.

A maior controvérsia, contudo, está justamente na forma como a série transforma fatos históricos em drama televisivo.

Em artigo publicado na Revista Fórum, o pesquisador Thiago Uberreich argumenta que a produção ultrapassa os limites da licença poética ao apresentar episódios excessivamente dramatizados.

Segundo sua avaliação, diversos conflitos pessoais e políticos são ampliados ou mesmo criados para tornar a narrativa mais emocionante, produzindo uma visão distorcida de personagens reais.

A crítica concentra-se especialmente na construção psicológica de algumas figuras históricas e em situações que não encontram confirmação nos registros da época.

Por outro lado, a jornalista Alice Ferraz, em análise publicada pelo Estadão, adota uma visão mais favorável. Para ela, a minissérie acerta ao recriar a atmosfera dos anos 1970, os bastidores da Seleção e o contexto político do país.

Em sua avaliação, a obra acumula mais acertos do que erros e consegue transmitir ao público contemporâneo a dimensão histórica daquela conquista.

A principal ressalva apontada por Ferraz estaria relacionada aos momentos finais da narrativa, que, segundo ela, exageram em determinadas escolhas dramáticas.

Há consenso, entretanto, em um aspecto: a produção jamais se propôs a ser um documentário.

Diferentemente de uma obra histórica tradicional, Brasil 70: A Saga do Tri utiliza recursos típicos da ficção para preencher espaços onde não existem registros detalhados.

Conversas privadas, pensamentos dos personagens e muitos dos diálogos exibidos são construções dramatúrgicas, ainda que inspiradas em figuras e acontecimentos reais.

No fim das contas, a série parece funcionar melhor quando entendida como uma dramatização histórica.

Os fatos centrais — a preparação da Seleção, a troca de técnicos, a pressão política e a conquista do tricampeonato — são reais. Já boa parte dos conflitos pessoais, diálogos e motivações apresentados deve ser encarada como interpretação artística.

Ao revisitar um dos maiores capítulos da história do futebol brasileiro, a produção reacende debates sobre memória, identidade nacional e os limites entre história e entretenimento.

E talvez seja justamente nessa zona cinzenta, entre o registro histórico e a ficção, que reside o principal motivo de seu sucesso.

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Rafael Ramos é jornalista e gestor de comunicação com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.