Inteligência artificial ganha espaço nas práticas religiosas e amplia discussão sobre limites e riscos

William Kevim
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Ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) têm sido incorporadas, de forma crescente, a ritos, sermões e práticas de aconselhamento espiritual em diferentes tradições religiosas. De pastores que treinam modelos próprios a fiéis que recorrem a chatbots para tirar dúvidas sobre fé, o uso da tecnologia está transformando rotinas de igrejas, sinagogas e capelas, ao mesmo tempo em que desperta preocupações entre líderes e pesquisadores.

Pastor nos Estados Unidos cria GPT para apoio a fiéis

Em 2024, o pastor Justin Lester, da Friendship Baptist Church, em Vallejo, Califórnia, desenvolveu um GPT personalizado que utiliza seus próprios sermões para produzir material destinado a pequenos grupos e facilitar a criação de lições por outros líderes da congregação. Para Lester, integrar IA ao cotidiano da comunidade ajuda no crescimento espiritual e no discipulado. “Jesus disse que faríamos coisas maiores, e acredito que a IA faz parte desse ‘maior’”, afirma.

Chatbots como companhia espiritual

O programador Siraj Raval, declarado ateu, recorreu ao TalkToHim, aplicativo que simula conversas com Jesus, motivado por solidão e medo existencial. Segundo ele, o chatbot ofereceu respostas sobre culpa, perdão e moralidade de maneira mais satisfatória do que materiais tradicionais de estudo bíblico. Apesar de sua descrença, Raval passou a frequentar regularmente uma igreja cristã não denominacional em Idaho.

Avatar de Jesus em confessionário suíço

No ano passado, a Capela de São Pedro, na Suíça, instalou um avatar de Jesus gerado por IA dentro de um confessionário como parte de uma experiência artística realizada em parceria com uma universidade local. De acordo com o teólogo Marco Schmid, muitas pessoas levaram a atividade a sério e até agradeceram ao chatbot, comportamento que ele considera incomum em interações com computadores convencionais.

IA em sermões judaicos e críticas à precisão

Durante as Grandes Festas Judaicas de 2023, o rabino Josh Fixler, da Congregação Emanu El, em Houston, reproduziu um sermão escrito por IA para discutir o impacto da tecnologia na humanidade. Depois da cerimônia, revelou a autoria automatizada do texto e afirmou ter ficado preocupado com erros: o chatbot atribuiu a Maimônides uma citação inexistente. Desde então, o rabino deixou de utilizar o recurso.

Erros doutrinários e riscos éticos

Beth Singler, professora assistente de religião digital na Universidade de Zurique, lembra um episódio em que um “Buda” criado na plataforma Character.ai mencionou, equivocadamente, cinco nobres verdades em vez de quatro. Ela teme consequências graves caso chatbots façam declarações profanas ou perigosas; pesquisas já registraram casos de usuários levados ao suicídio após interações com sistemas de conversa.

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Imagem: Reprodução/Instagram

Questões sobre autenticidade também preocupam Yaqub Chaudhary, pesquisador visitante do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence, em Cambridge. Para ele, modelos de linguagem que misturam referências podem comprometer a validade de ensinamentos islâmicos, cuja base é o Alcorão, considerado palavra direta e imutável de Deus. O estudioso questiona como distinguir entre orientações permitidas (halal) e proibidas (haram) quando o conteúdo é gerado por IA.

A presença humana ainda é vista como essencial

Para o bispo de Oxford, Steven Croft, a comunidade cristã se fundamenta no contato presencial, porque a fé está centrada em um Deus que se fez humano. O rabino Fixler compartilha perspectiva semelhante e avalia que, embora a IA ofereça novas formas de exploração religiosa, não substitui a necessidade de conexão direta entre pessoas: “O trabalho da religião é fazer com que todos nós sejamos o mais humanos possível”.

Com a adoção da tecnologia crescendo, especialistas apontam que a discussão sobre limites, precisão doutrinária e responsabilidade ética deve acompanhar cada nova aplicação em ambientes de fé.

Com informações de G1

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William Kevim é profissional de tecnologia com profunda paixão por cultura e entretenimento. Frequentador assíduo de teatros e cinemas, acompanha de perto lançamentos musicais, produções cinematográficas e o universo dos animes. Colabora com os portais do R2 Mídia Group trazendo pautas leves, culturais e de entretenimento com entusiasmo e olhar apurado.