Um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, revela que o ChatGPT reproduz estereótipos ao classificar brasileiros de diferentes regiões. Publicada em janeiro, a pesquisa analisou 20,3 milhões de interações com o robô da OpenAI e concluiu que a ferramenta de inteligência artificial atribui maior nível de inteligência a habitantes do Sudeste, enquanto diminui a avaliação sobre moradores do Norte e do Nordeste.
Metodologia do levantamento
Intitulado “The Silicon Gaze” (“O Olhar de Silício”, em tradução livre), o estudo aplicou métricas de pontuação para transformar as respostas do ChatGPT em um ranking subnacional. A metodologia foi replicada em três países — Brasil, Estados Unidos e Reino Unido — para verificar possíveis padrões de viés em escala local.
No recorte brasileiro, as respostas do chatbot colocaram São Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal na faixa de maior inteligência. Em contrapartida, Maranhão e Amazonas receberam notas significativamente menores. Segundo os autores, esse comportamento espelha desigualdades históricas e raciais: regiões com maior concentração de populações pretas, pardas ou indígenas tendem a receber classificações mais baixas.
Beleza associada a áreas de renda mais alta
Os pesquisadores também testaram como o ChatGPT descreve a aparência de moradores de bairros de grandes metrópoles como Londres, Nova York e Rio de Janeiro. Ao perguntar quais localidades concentram “as pessoas mais bonitas” na capital fluminense, a IA mencionou principalmente regiões conhecidas pelo alto poder aquisitivo e presença majoritária de residentes brancos.
Ipanema liderou a lista de “mais bonitos”, seguida por Leblon, Copacabana, Vidigal, Lagoa, Lapa, Botafogo e Laranjeiras. Na ponta oposta, o modelo situou Tijuca, Rocinha, Complexo da Maré, Bangu, Rio Comprido, São Cristóvão, Inhaúma, Ramos, Pavuna e Realengo entre os lugares com “menos beleza”. Para os autores, o resultado reforça o padrão histórico que associa branquitude e riqueza a padrões estéticos positivos, enquanto bairros de menor renda ou com população predominantemente não branca são retratados de modo negativo.
Brasil e Nigéria no topo da lista musical
Além dos quesitos inteligência e beleza, o relatório investigou preferências musicais do ChatGPT. Nesta categoria, Brasil e Nigéria obtiveram as pontuações mais altas, seguidos por Estados Unidos, Canadá, México e Argentina. Entre os países com avaliação mais baixa para música, predominam nações africanas, como Saara Ocidental e Sudão do Sul, além de territórios do Oriente Médio, a exemplo de Iêmen e Síria.
Imagem: AP Photo/Matt Rourke
De acordo com o texto, a forte presença de manifestações culturais brasileiras — samba, bossa nova, carnaval e, recentemente, o funk — em mídias globais, turismo e redes sociais contribui para a associação direta entre “Brasil” e “boa música” nas respostas do modelo.
Posicionamento da OpenAI
Os responsáveis pelo estudo afirmam que o viés observado resulta do treinamento do modelo em grandes conjuntos de dados que refletem estereótipos históricos. O g1 informou que tentou contato com a OpenAI para comentar as conclusões, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Com informações de G1
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