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A Anthropic, laboratório de inteligência artificial sediado em San Francisco, entrou na Justiça contra o Departamento de Defesa dos Estados Unidos após recusar a exigência de acesso irrestrito ao seu modelo Claude para “todos os usos legais”. A ação judicial marcou a primeira vez que uma companhia de IA norte-americana contesta publicamente ordens militares para retirar barreiras éticas de sua tecnologia.
Operação na Venezuela detonou crise
Segundo reportagens do Wall Street Journal, do site Axios e da revista Time, o Claude foi utilizado durante a operação que resultou na captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Nem a Anthropic nem o Pentágono confirmaram oficialmente o uso, mas, após o episódio, um executivo da empresa buscou a Palantir — parceira que intermedeia a integração de softwares civis com as Forças Armadas — para saber se seu sistema havia participado da missão.
O questionamento gerou preocupação no alto escalão militar. Emil Michael, subsecretário de Defesa e diretor-chefe de tecnologia, manifestou receio de que a Anthropic pudesse “desligar” o modelo durante futuras operações, colocando vidas em risco. A companhia nega qualquer intenção de limitar casos específicos e sustenta que a pergunta foi rotineira.
Exigência de liberação total e reação da empresa
Na sequência, o Pentágono exigiu permissão completa para empregar a IA em qualquer cenário considerado lícito. A Anthropic se recusou, alegando salvaguardas éticas firmadas em contrato de US$ 200 milhões assinado em julho de 2025. O acordo previa duas linhas vermelhas: proibição de uso para vigilância doméstica em massa e para armas totalmente autônomas.
Diante da negativa, Pete Hegseth, então Secretário de Defesa no governo Donald Trump, classificou a Anthropic como “risco para a cadeia de suprimentos”, rótulo normalmente aplicado a empresas estrangeiras como Huawei e Kaspersky. Trump determinou a suspensão de qualquer produto Anthropic em órgãos federais e publicou mensagem na Truth Social afirmando, em letras maiúsculas, que os Estados Unidos não permitiriam que uma empresa “woke” definisse estratégias militares.
A história da Anthropic
Fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI, a Anthropic foi criada sob o princípio de que a IA representa um risco existencial à humanidade e deve ser desenvolvida com foco em segurança. O presidente-executivo Dario Amodei, ex-vice-presidente de pesquisa da OpenAI, defende o apoio a forças militares “em todas as formas que não tornem o país semelhante a regimes autocráticos”. Os compromissos estabelecidos no contrato com o Pentágono refletem esse posicionamento.
Vácuo jurídico e responsabilidades
Especialistas da Universidade de Oxford apontam que o conflito evidencia lacunas antigas na governança da inteligência artificial aplicada a operações militares. O direito internacional humanitário, moldado para decisões humanas, ainda não define claramente quem responde por violações envolvendo sistemas autônomos. Sem legislação específica nos EUA, “uso lícito” passa a depender da interpretação de cada Estado.
Consequências imediatas
Com a ruptura, o Departamento de Defesa anunciou novo acordo com a OpenAI poucas horas depois. No mercado civil, porém, o aplicativo Claude ultrapassou o ChatGPT na App Store da Apple no dia seguinte, registrando mais de um milhão de novos cadastros diários e liderando rankings em mais de 20 países.
O posicionamento da Anthropic também recebeu apoio de duas coalizões de funcionários de Amazon, Google, Microsoft e OpenAI, além de dezenas de cientistas do setor. Um general aposentado da Força Aérea, que comandou o Projeto Maven em 2018, declarou simpatizar com a postura da empresa.
Próximos passos
Analistas jurídicos avaliam que a Anthropic tem boas chances de vitória nos tribunais, argumentando que o Pentágono excedeu sua autoridade contratual ao exigir remoção de salvaguardas. Enquanto isso, o departamento já planeja ampliar o uso de inteligência artificial, por meio da Palantir, em tarefas de monitoramento do Serviço de Imigração (ICE), iniciativa criticada por grupos de direitos civis.
O processo ainda não tem data para julgamento. Até lá, o embate entre segurança nacional e limites éticos na utilização de IA permanece sem solução normativa, mantendo em aberto a discussão sobre quem define como e onde essas tecnologias serão aplicadas.
Com informações de G1
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