O embaixador do Brasil em Teerã, André Veras, afirmou que uma intervenção militar estrangeira destinada a depor o governo islâmico iraniano demandaria uma ação “hercúlea, sangrenta” e teria alto custo econômico para a comunidade internacional.
A avaliação foi feita na manhã desta segunda-feira, 9 de março, durante entrevista ao jornalista José Luiz Datena, no programa Alô Alô Brasil, transmitido pela Record. Segundo Veras, ataques exclusivamente aéreos não seriam suficientes para provocar uma mudança de regime. “Não haveria possibilidade de alteração só com bombardeios. Por isso se discute o envio de tropas”, declarou.
O diplomata apontou diversos obstáculos para uma ofensiva terrestre: a extensão territorial do Irã, o relevo montanhoso e a capacidade ofensiva das Forças Armadas locais. “Aqui a situação é diferente da enfrentada pelos Estados Unidos em outras guerras recentes. Será uma tarefa sangrenta”, reiterou.
Infraestrutura ainda funciona
Dez dias depois de Estados Unidos e Israel iniciarem bombardeios contra alvos iranianos — ação que matou o aiatolá Ali Khamenei e centenas de civis —, serviços essenciais continuam ativos, relatou o embaixador. “Comércio aberto, aulas remotas nas escolas, mercados abastecidos. Não houve corte de luz, água ou gás, mas a gasolina está racionada”, disse, lembrando que a capacidade de refino já era limitada antes do conflito.
Sucessão rápida
Veras considerou a substituição de Khamenei pelo filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos, um sinal de resiliência institucional. A Assembleia dos Especialistas confirmou o novo líder supremo dias depois da morte do pai. Para o embaixador, porém, a escolha pode alimentar críticas internas, pois a Revolução Islâmica de 1979 havia abolido justamente a hereditariedade no poder. “Assumir o filho cria a impressão de retorno a um sistema que se queria superar”, observou.
Brasileiros no país
Até o momento, não há plano de evacuação de brasileiros. Estimam-se cerca de 200 cidadãos residentes no Irã, em sua maioria mulheres casadas com iranianos. As fronteiras terrestres seguem abertas, e casos pontuais são acompanhados pela embaixada. Veras mantém contato diário com o Itamaraty, que informa constantemente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Custos da guerra e saída diplomática
O embaixador avaliou que a continuidade dos ataques representa “questão de vida ou morte” para a liderança iraniana, tornando improvável uma rendição. Ainda assim, acredita haver espaço para negociação: o Irã necessita do levantamento das sanções econômicas, enquanto os Estados Unidos e o restante do mundo precisam de estabilidade para garantir o fluxo do comércio global. “Mesmo que alguns imaginem vantagem no controle do petróleo, todos perdem em uma economia globalizada”, argumentou.
Para Veras, o aumento dos custos do conflito pode forçar maior racionalidade na busca de uma solução diplomática. “Há espaço porque os custos estão se elevando muito”, concluiu.
Com informações de Agência Brasil
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