Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz transformam diálogo em livro

Rafael Ramos
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Gravado em um quilombo urbano no Rio, Escreviventes reúne reflexões sobre memória, racismo, maternidade e amizade. A obra foi lançada na Flip pela Pallas Editora.

Uma conversa entre duas autoras renomadas, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, originou a obra Escreviventes (Pallas Editora), lançada neste mês durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ambas marcaram presença em eventos lotados durante o festival.

O diálogo, gravado ao longo de dois dias na Kaza 123, um quilombo urbano localizado em Vila Isabel, Rio de Janeiro, abordou diversos temas, incluindo literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade. As autoras demonstraram como suas experiências pessoais influenciam a escrita literária.

“Nós estamos exercendo o direito à memória”, destacou Conceição, em evento realizado na Casa Estante Virtual.

O lançamento da obra ocorre em um momento simbólico: em 2026, Conceição Evaristo celebra 80 anos e Eliana Alves Cruz comemora 60 anos.

A obra inaugura a coleção Memórias Brasileiras e antecipa o documentário homônimo, dirigido por Estevão Ribeiro, que está previsto para estrear em festivais em 2027.

Conceição Evaristo, ao comentar sobre sua concepção de escrevivência, enfatiza que este conceito vai além da memória e dos relatos autobiográficos, abrangendo também a criação e a ficcionalização. “Só escreve ficção quem conhece a realidade”, lembrou a escritora, citando o autor angolano Pepetela.

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Para Conceição, o conhecimento da realidade e a experiência de vida são fundamentais para a elaboração da ficção. “E, muitas vezes, [permite] ficcionalizar uma memória que a gente não tem. É uma memória criada”, acrescentou, referindo-se ao texto de Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor.

Esse romance narra a história de uma mulher africana em busca de seu filho perdido no Brasil, onde a protagonista Kehinde é inspirada em mulheres negras reais, como a ativista Luiza Mahin, que foi trazida à força da África.

“A história da literatura brasileira é devedora das mulheres escritoras, e é principalmente devedora dos escritores negros, homens e mulheres”, afirmou Conceição.

Eliana Alves Cruz também destacou a relevância de registros como o apresentado na obra, mencionando a carência de material sobre autores como Lélia Gonzalez.

“A gente sabe da importância [dos autores], a gente celebra, tem livro publicado, mas não os registros [sobre as pessoas]. Toda e qualquer oportunidade que a gente tenha para registrar as pessoas, a gente precisa usar. E essa foi uma oportunidade linda, um pouco feita na garra”, disse a escritora.

No entanto, Eliana expressou preocupação com a dificuldade em adaptar projetos relacionados à história e à memória negra para o formato audiovisual.

“E aqui vai um pouco um protesto, porque eu acho que não é surpresa para ninguém. Essa democratização da literatura é algo muito recente no Brasil. E muito se deve à tecnologia, à chance de ter livros, e-book. Mas, no audiovisual, a gente tem um cenário bem difícil”, lamentou.

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Rafael Ramos é jornalista e gestor de comunicação com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.