Cerco a Bamako por grupos jihadistas põe em risco Aliança dos Estados do Sahel

Robson Alves
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Grupos jihadistas, entre eles um ligado à Al-Qaeda, estabeleceram um cerco parcial à capital do Mali, Bamako, em ataques coordenados que ampliam a crise na região e representam um desafio direto à Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Níger e Burkina Faso.

Em 25 de abril, ofensivas do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e da Frente de Libertação do Azaward (FLA) resultaram na tomada de cidades e áreas do Mali, incluindo Kidal, e na morte do ministro da Defesa, Sadio Camara. As ações incluíram o bloqueio de vias de acesso à capital, medida interpretada como tentativa de forçar a rendição do governo do presidente Assimi Goïta.

Quem, o que e onde

Os principais atores são o JNIM — considerado braço da Al-Qaeda no Sahel — e o FLA, movimento tuaregue que busca autonomia para a população nômade daquela região. As operações ocorreram no norte e no centro do Mali, com reverberações para os demais membros da AES: Níger e Burkina Faso.

Como e por que

Especialistas indicam que os ataques fazem parte de uma escalada que já vinha ocorrendo há meses e que compromete o abastecimento de áreas afetadas pelo cerco. Para pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), a eventual queda do Mali representaria um ponto de ruptura territorial e de segurança no Sahel, com efeitos diretos sobre países vizinhos da África Ocidental.

A região, com mais de 420 milhões de habitantes, concentra reservas de ouro, petróleo e minerais, mas convive com altos níveis de pobreza e presença de diversos grupos insurgentes islâmicos. Analistas alertam para um deslocamento do centro de recrutamento jihadista do Mediterrâneo para o Sahel.

Reações políticas e acusações

O governo do Mali acusa a França de apoiar e financiar grupos armados, alegação formalizada junto ao Conselho de Segurança da ONU em 2022. Em resposta, Paris rejeita as acusações, lembrando nove anos de operações no Sahel e a perda de 59 soldados franceses no combate aos grupos armados.

A AES divulgou nota condenando os ataques, caracterizando-os como ação concertada contra a dinâmica de integração do bloco. Desde 2020, após golpes militares nesses países, a aliança vem promovendo mudanças institucionais e reduzindo a influência francesa, o que levou à expulsão de Mali, Níger e Burkina Faso da Comunidade Econômica da África Ocidental (CEDEAO) e a um certo isolamento regional.

Alianças externas e impacto militar

Os governos da AES têm recebido apoio militar da Rússia, sobretudo por meio do grupo conhecido como Wagner e de forma associada à chamada África Korps. Contudo, especialistas que acompanham conflitos na região avaliam que esse apoio não tem sido suficiente para estancar os avanços dos insurgentes. Observadores ressaltam que o anúncio do JNIM sobre um bloqueio a Bamako tende a obrigar as forças malianas a concentrare m recursos na proteção da capital.

Pesquisadores e analistas geopolíticos também apontam interesses externos na desestabilização da região, citando envolvimento de potências e de atores do Golfo em fluxos de armas e financiamento. O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, líder de destaque na AES, classifica o avanço do terrorismo como expressão do imperialismo e defende que apenas um exército fortalecido permitirá o desenvolvimento das nações do Sahel.

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.