Brasil adota posição cautelosa entre ofensiva dos EUA e vínculo com Irã no Brics

Robson Alves
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O governo brasileiro optou por um posicionamento prudente após os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos no Irã no sábado, 28 de fevereiro de 2026. Em nota oficial, o Itamaraty condenou a ofensiva e defendeu a retomada de negociações como via para a paz, pedindo que todas as partes respeitem o direito internacional e evitem a escalada do conflito.

A cautela é explicada por dois fatores centrais: a participação iraniana no Brics, bloco que reúne economias emergentes do Sul Global, e a negociação em curso com Washington para reduzir tarifas impostas a produtos brasileiros. Especialistas ouvidos apontam que Brasília busca um ponto de equilíbrio que preserve relações tanto com Teerã quanto com a Casa Branca.

Pressão externa e fronteira econômica

O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, observa que a entrada do Irã no Brics em 2024 colocou o Brasil “em uma posição delicada”, pois exige evitar antagonismos diretos com Teerã sem, contudo, comprometer o diálogo comercial com os Estados Unidos. A agenda bilateral inclui encontro previsto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, no fim de março, para discutir principalmente barreiras tarifárias.

Em agosto de 2025, o governo Trump elevou tributos sobre certas exportações brasileiras para até 50%. Desde então, negociações vêm sendo conduzidas para retirar itens da lista. Embora uma decisão da Suprema Corte norte-americana, de 20 de fevereiro, tenha derrubado parte das sobretaxas, o presidente norte-americano reagiu aplicando nova tarifa de 10% sobre diversos produtos estrangeiros, mantendo o impasse.

Alianças dentro do Brics

Williams Gonçalves, professor aposentado da Uerj, lembra que Rússia e China, aliados do Irã, integram o Brics desde a fundação em 2006. Segundo ele, essa rede de relações reforça o cuidado brasileiro: “Estão todos engajados, ao menos teoricamente, na ideia de reformar a ordem internacional”, afirma. Para o docente, a mesma moderação se verificou no posicionamento do Brasil em relação às ações de Trump na Venezuela, como a captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro.

Impactos potenciais

A avaliação do pesquisador Leonardo Paz Neves, da Fundação Getulio Vargas, é de que o envolvimento brasileiro no conflito tende a ser limitado. Contudo, ele assinala dois possíveis reflexos negativos: aumento do preço do petróleo, com impacto inflacionário, e dificuldades no comércio com o Irã, destino relevante para exportações agrícolas brasileiras.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que a corrente de comércio bilateral somou US$ 3 bilhões em 2025, com superávit de US$ 2,9 bilhões para o Brasil. O milho não moído respondeu por 67,9% das vendas, seguido pela soja (19,3%). Caso o estreitamento do cerco naval ao Irã avance, embarques brasileiros podem enfrentar obstáculos logísticos, afetando especialmente produtores de grãos.

Segundo Paz Neves, o governo deve manter postura “crítica institucional”, conclamando as partes a retomar o diálogo, sem se engajar diretamente: “Antagonizar com Trump agora pode atrair atenção negativa demasiada para o Brasil”, avalia.

Até o momento, o Palácio do Planalto mantém a defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção como balizas de sua política externa. A evolução do conflito, entretanto, poderá exigir novos posicionamentos caso as hostilidades se intensifiquem.

Com informações de Agência Brasil

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Robson Alves é analista e colaborador editorial especializado em política nacional e internacional, economia e cultura. Com formação em contabilidade e leitura apurada sobre cenários econômicos e geopolíticos, assina textos que conectam o que acontece no mundo com os impactos no cotidiano brasileiro.