Transmissão: Band
A segunda investida militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã em um intervalo de oito meses, registrada no sábado (29), tem como finalidade derrubar o governo em Teerã, conter a expansão econômica chinesa e projetar Israel como potência incontestável no Oriente Médio, afirmam especialistas ouvidos pela Agência Brasil.
A justificativa oficial — um ataque “preventivo” para impedir Teirã de produzir uma bomba atômica — é contestada por acadêmicos de relações internacionais. Eles ressaltam que, às vésperas da ofensiva, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, mediador nas negociações nucleares, declarou que o Irã aceitara ficar sem estoque de urânio enriquecido, passo crucial para um acordo de não proliferação.
Regime “fantoche” e disputa regional
Para Rashmi Singh, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Washington e Tel Aviv aproveitaram o momento de fragilidade interna iraniana. “Os dois governos avaliam que Teerã está fraco e veem oportunidade estratégica para instalar um gabinete alinhado aos interesses norte-americanos”, disse. Singh também citou o calendário político israelense: o premiê Benjamin Netanyahu enfrenta eleições ainda este ano e, segundo ela, recorre ao discurso de segurança para fortalecer sua posição.
Pressão sobre a China
Robson Valdez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), pondera que a motivação central não é o suposto risco nuclear, mas o equilíbrio de poder. “O conflito atinge diretamente a China, grande compradora do petróleo iraniano que sai pelo Estreito de Ormuz,” avaliou. Valdez lembra que EUA, Israel, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes disputam influência na região, e um Irã enfraquecido favorece os interesses de Washington contra Pequim.
Na mesma linha, o cientista político Ali Ramos recordou que Israel não obteve êxito em derrubar o regime iraniano na guerra de 12 dias, em 2025, e agora tenta assegurar supremacia estratégica. “Sem neutralizar mísseis balísticos e drones do Irã, Tel Aviv segue vulnerável”, afirmou. Ramos advertiu ainda que, se Teerã cair, rotas de armamentos poderão abastecer militantes uigures na China, ampliando a pressão sobre Pequim.
Eixo econômico euroasiático na mira
O historiador Rodolfo Queiroz Laterza acrescentou que Washington, ao lado de Israel, pretende afastar o Irã do corredor comercial construído por China e Rússia na Eurásia. O país persa, quinto maior produtor mundial de petróleo e detentor de uma das três maiores reservas de hidrocarbonetos confirmadas, é peça-chave na Nova Rota da Seda chinesa.
Israel no centro
Mohammed Nadir, professor da Universidade Federal do ABC, considera que a narrativa sobre “ameaça nuclear” serve para mascarar a real intenção: assegurar supremacia israelense. “Esta é, essencialmente, uma guerra de Netanyahu. Washington endossa para garantir a primazia de Israel,” analisou. Ele comparou a situação à invasão do Iraque, em 2003, quando a alegação de “armas de destruição em massa” nunca se comprovou.
Argumento nuclear questionado
Roberto Goulart Menezes, docente da Universidade de Brasília, lembra que o Irã integra o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e pode ser inspeccionado sem aviso pela Agência Internacional de Energia Atômica. “O programa nuclear sempre foi pretexto para ações hostis dos EUA”, disse. Para o professor, o ex-presidente Donald Trump aplica uma política “abertamente imperialista” ao rejeitar a permanência de governos considerados adversários de Washington.
Contexto histórico
As tensões remontam à Revolução Islâmica de 1979, quando o xá aliado dos EUA foi deposto. Desde então, o Irã sofre sucessivas sanções econômicas norte-americanas. Em 2015, Teerã firmou, com apoio europeu, um acordo de inspeção de seu programa nuclear, abandonado unilateralmente por Trump em 2018, durante seu primeiro mandato. De volta ao poder em 2025, o republicano exigiu do Irã o fim não apenas do enriquecimento de urânio, mas também do programa de mísseis balísticos e do apoio a grupos como Hamas e Hezbollah.
Um dia antes da atual ofensiva, Albusaidi, de Omã, afirmou à rede CBS que o entendimento “estava muito próximo”, com Teerã concordando em não armazenar urânio enriquecido. “Haveria zero acumulação, verificação completa”, declarou o chanceler. A ofensiva, porém, interrompeu a negociação e reacendeu a crise regional.
A continuidade do conflito ameaça a principal rota de exportação de petróleo iraniano e pode elevar ainda mais a tensão entre Estados Unidos e China, cuja economia depende do fornecimento de energia oriundo do Golfo.
Com informações de Agência Brasil
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