Em abril de 2026, um caso de agressão a um homem em situação de rua em Belém (PA) chocou o país. Universitários atacaram a vítima com descargas elétricas, enquanto ele caminhava. A cena foi amplamente compartilhada nas redes sociais e trouxe à tona a violência enfrentada diariamente por pessoas que vivem nas ruas.
Esse incidente é apenas um dos muitos episódios de violência contra a população em situação de rua no Brasil. Entre os anos de 2014 e 2023, foram registrados oficialmente 150 mil casos de violência. Entretanto, acredita-se que esse número seja apenas a ponta do iceberg, pois muitos casos não são notificados.
Um estudo intitulado ‘A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua’, realizado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG, revela que 70% das vítimas não buscam atendimento médico após sofrerem agressões. O coordenador do estudo, professor André Luiz Freitas Dias, destaca a subnotificação como um grande desafio. “Os dados disponíveis refletem apenas a parte visível de um problema muito mais amplo”, enfatiza.
De acordo com dados do sistema de saúde, cerca de 120 casos graves de violência são reportados diariamente. Desses, 75% resultaram em lesões que exigiram intervenção médica, e 12% culminaram em traumas graves ou até morte.
“Esse ciclo contínuo de exposição a riscos é marcado pela ausência de proteção e pela insuficiência das redes de acolhimento”, lamenta Dias.
O presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, Robson César Correia de Mendonça, aponta que a violência é uma realidade constante nas ruas e que os números oficiais não refletem a gravidade da situação. “Aqui em São Paulo, três pessoas em situação de rua são agredidas diariamente”, afirma.
Mendonça critica o papel do Poder Público, que, segundo ele, falha em garantir os direitos dessa população. “É necessário fazer cumprir as leis e punir severamente quem as descumpre”, defende.
O estudo revela que a maioria das vítimas são homens jovens e negros, com 78% das notificações envolvendo pessoas pretas ou pardas. Além disso, 82% dos agredidos estão na faixa etária de 15 a 49 anos. O coordenador ressalta que a violência é exacerbada por fatores como raça, pobreza e exclusão social.
“A violência atinge desproporcionalmente jovens negros, refletindo um quadro de racismo estrutural e desigualdades históricas”, afirma Dias.
Os dados mostram que a forma mais comum de agressão é o ataque físico, representando 65% dos casos. Em seguida, aparecem a violência psicológica (42%) e a negligência (18%). O estudo oferece uma visão abrangente da complexidade e gravidade da situação enfrentada pela população em situação de rua no Brasil.
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